
100 Things Every Designer Needs To Know About People, de Susan Weinschenk, é um livro que introduz compreensões básicas relativas à experiência de utilizador (UX). A obra oferece alicerces importantes para a carreira de qualquer designer, mesmo que não seja de interação. Separada por tópicos, a publicação funciona como um glossário e não tem por isso que ser lida continuamente. É de leitura objetiva, fácil, e conta com marcadores no fim de cada tópico que indicam os pontos a reter (e como os aplicar no ramo). Nada neste livro é revolucionário, aliás, até podemos deduzir alguns conteúdos com base no senso comum. Não obstante, Weinschenk, psicóloga com foco no comportamento humano, ilustra os exemplos com uma explicação impecável e sintética.
O primeiro capítulo, How People See, explora como o nosso cérebro interpreta o mundo. Na verdade, não existe uma realidade objetiva ou “única”: cada pessoa processa o que vê de forma ligeiramente diferente. Podemos destacar alguns exemplos. Na teoria do reconhecimento por componentes (Recognition-by-components theory), proposta por Irving Biederman em 1985, acredita-se que é graças a 24 formas básicas que o nosso cérebro desconstrói e analisa o que o rodeia. De forma complementar, existe uma secção do nosso cérebro, a área facial fusiforme (AFF), que permite identificar faces mais rápido do que reconhecer objetos. Esta área também se encontra próxima da amígdala, o centro emocional do cérebro. Algumas pessoas no espetro de autismo não utilizam a AFF para identificar faces, recorrendo por isso às vias “padrão” que normalmente utilizamos para os objetos. Logo, se eu criar um produto dedicado a autistas, devo ter especial atenção à utilização de caras, já que este não trará os mesmos benefícios para este tipo de utilizador “padrão” (neurotípico).
Este foi um dos diversos raciocínios encontrados ao longo da obra. Poderia até escrever outro livro apenas a salientar os pontos mais importantes, mas francamente já existem artigos na internet e vídeos que trataram desta tarefa, logo darei apenas mais dois exemplos.
Comida, sexo e perigo: acho que seria um ótimo título para uma palestra dedicada a este livro, no entanto, este é também é o 47º tópico. Como afirma Weinschenk, a nossa atenção é seletiva e a função do cérebro primitivo (ou réptil) é manter-nos vivos e procriar. Não resistimos a olhar para um acidente na estrada, ou para alguém atraente no mesmo espaço que nós. É normal e não necessariamente implica que atuemos em conformidade com o cérebro reptiliano. Dito isto, utilizar a fotografia de um hambúrguer suculento para promover um centro de resgate animal talvez não seja a melhor ideia – mas certamente esta captará a nossa atenção.
Finalmente, se eu encontrar um desconhecido na rua e essa pessoa imediatamente pedir o meu código postal e endereço de casa, provavelmente irei ignorar, fugir ou chamar a polícia. O mesmo raciocínio aplica-se em interações online (66º tópico), ou seja, já que no fundo somos animais sociais, também esperamos que as interações no mundo real sejam minimamente comparáveis às do digital. Portanto, no meu hipotético website, se eu quiser que os meus visitantes cedam os seus dados pessoais de bom grado (como ao subscreverem uma newsletter), então devo “amortizar” a entrada, ou seja, introduzo quem somos, o que fazemos, os nossos produtos e só depois é que peço o e-mail (e não o contrário).
À semelhança da autora, explorei cada tópico deste livro de forma resumida. Este talvez seja simultaneamente o ponto mais forte e fraco do livro, já que apenas oferece uma visão geral de cada assunto. O seu objetivo é ser um glossário de leitura, direto ao ponto; contudo, se sintetizo tanto (cada tópico fica entre 2 a 4 páginas), também corro o risco de descartar informação importante, e muitas vezes são os detalhes que fazem a diferença.
Adicionalmente, este será um livro cronicamente desatualizado, independentemente da edição. Isso não é um problema que a autora consiga resolver, todavia escrever um livro dedicado à experiência de utilizador, num mundo que evolui tão rápido, implica que assim que uma nova edição é lançada, muitos tópicos ficarão automaticamente obsoletos.
Weinschenk também promove em excesso neste livro outros livros da sua autoria; a obra Neuro Web Design: What Makes Them Click?, por exemplo, é referenciada 8 vezes. Não é algo tão incomodativo quanto isso, mas será que importa? Também inclui determinados tópicos um pouco desconectados do universo do design. Não é inútil saber que o riso une as pessoas de um grupo ou que gostamos de paisagens pastorais, mas a aplicabilidade destes factos no ofício de um designer pode ser um pouco rebuscada. Este conjunto de objeções não dispensa a leitura obrigatória do livro (ou semelhante); aliás, arrisco em afirmar que a integração de alguns princípios no nosso programa da licenciatura em Design de Comunicação, ou a criação de uma cadeira teórica nova como Psicologia do Design, iria colmatar boa parte das críticas à nossa licenciatura.
É evidente que a formação no ensino superior não dispensa a leitura de artigos fora dos planos curriculares. No entanto, os alunos entendem que o nosso curso é exageradamente politizado, ativista e conceptual. Estes pontos não são necessariamente maus, aliás, até são um fator diferenciador quando a comparamos com outras licenciaturas. Eu próprio já falei com um diretor de arte que entende que a conceptualização dos ex-alunos de Belas-Artes é excelente. No entanto, chega a ser cómico (e trágico) só aprofundar os princípios da Gestalt (Design de Informação) depois de criar um manual de normas para um grupo ativista (Design de Comunicação II).
Em suma, 100 Things Every Designer Needs To Know About People é uma ótima introdução aos princípios básicos da experiência de utilizador (UX). É um livro de leitura simples e sintética (por vezes em excesso), que introduz factos da psicologia associados a exemplos de aplicação que, dependendo do nosso compasso moral, podem ser utilizados para melhorar a usabilidade da nossa plataforma, expandir o engajamento ou até manipular os nossos utilizadores.
Recensão de:
Filipe Silva
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2024-25