
Bio Design: nature, science & creativity é uma obra essencial para compreender as inovações tecnológicas combinadas entre a Biologia e o Design. Instiga os leitores a reconsiderar as práticas de design contemporâneas, destacando o papel das inovações da tecnologia em resposta aos desafios ambientais e climáticos atuais. William Myers analisa como o design pode evoluir não apenas imitando a natureza, mas colaborando diretamente com ela, ao criar soluções que integram processos biológicos e promovem um impacto ambiental positivo no meio ambiente.
Inicialmente, é introduzido o potencial do biodesign para ressignificar os fundamentos do design contemporâneo, frequentemente baseados em práticas industriais e artificiais de produção. Apresenta uma nova visão do design como uma prática ecológica e ética, apropriando-se de inovações biotecnológicas em diversas áreas como a arquitetura, design industrial, engenharia, medicina e moda, com a finalidade de desenvolver produtos e sistemas que não prejudiquem o meio ambiente. O biodesign pretende não apenas minimizar os danos causados ao ambiente mas também regenerar o mesmo, ao utilizar tecnologias avançadas aliadas aos processos naturais, de modo a refletir e transformar o modo de funcionamento da produção humana.
Reunindo cerca de 70 projetos, este livro demonstra como o design pode mimetizar e integrar-se aos ecossistemas, criando alternativas sustentáveis que respeitam os ciclos da natureza. Estes projetos são ilustrados com imagens, desenhos e esquemas, além de serem organizados por capítulos temáticos. Estes começam pela arquitetura híbrida, seguindo-se os materiais ecológicos, os projetos experimentais, os projetos de “beleza dinâmica”, aos quais se segue um capítulo de programas e colaborações, além de uma seção de dicas para colaboração e uma subdivisão final com entrevistas a designers e outros profissionais relacionados ao biodesign.
O autor contextualiza o biodesign nos atuais desafios climáticos e ambientais, pretendendo realçar a urgente necessidade de reduzir as emissões de carbono, o combate ao desperdício e a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas. Esta área demonstra uma oportunidade para repensar estas questões através de novos materiais biológicos, mas também, e sobretudo, provoca uma reflexão sobre a maneira como produzimos, consumimos e, posteriormente, descartamos os produtos. Seguindo esta linha de pensamento, o biodesign interliga a ideia de uma economia circular, onde os resíduos de um sistema servem como recursos para outros, com a principal preocupação de regenerar o meio ambiente – ao contrário do que temos presenciado até agora.
O conceito principal do biodesign está bastante presente no segundo capítulo do livro, destinado à investigação laboratorial de materiais naturais e sustentáveis no design, com foco na engenharia de materiais ecológicos para aumentar a eficiência e reduzir o impacto ambiental. Estes materiais além de ecológicos são orgânicos, ou seja, possuem a capacidade de se regenerarem ou se decomporem de maneira não poluente, ao contrário dos materiais sintéticos. Entre os projetos apresentados, destaca-se o EcoCradle, uma embalagem sustentável que pretende substituir o poliestireno, desenvolvida com o uso do micélio, um material derivado de cogumelos e de resíduos agrícolas, tais como cascas de sementes.
Outro ponto exposto neste livro são os desafios éticos e práticos do biodesign. O autor evidencia as limitações e complexidades associadas ao uso de organismos vivos e à manipulação genética, incluindo questões de segurança, de controle e de sustentabilidade a longo prazo da sua utilização. Este questionamento é importante, já que ao operar com seres vivos o biodesign pode vir a ter consequências imprevisíveis para os ecossistemas e para a saúde humana. Posto isto, Myers incentiva-nos a adquirir uma visão ética e consciente, advertindo para a importância de regulamentações e da responsabilidade de designers e cientistas que trabalham nesta área.
A obra é fundamentada em princípios do design biofílico e design biomimético, um trabalho bastante popularizado pela escritora e bióloga americana, Janine Benyus, também cofundadora da empresa de consultoria e treinamento global Biomimicry 3.8, propondo a natureza como fonte de soluções e inspirações para a inovação. Porém, o biodesign vai além da simples imitação dos processos naturais, interligando profundamente o design ao ecossistema. Este conceito relaciona-se com o design de sistemas, que visa a compreender os objetos e produtos como componentes de um ecossistema complexo e interconectado.
O livro responde à crescente demanda por sustentabilidade no design, interligando-se a movimentos como o slow design ou o design crítico e especulativo, e buscando refletir sobre os impactos da produção e o papel do design em encontrar futuros alternativos. Definidamente, pretende incentivar designers a pensar além das práticas tradicionais e a explorar novas maneiras de interligar o ser humano, a tecnologia e o meio ambiente, de modo a responder efetivamente às necessidades humanas de maneira sustentável.
Num cenário de desafios climáticos e ambientais cada vez mais críticos, como o aquecimento global, a perda da biodiversidade, a poluição e a escassez de recursos naturais, Myers apela aos designers das novas gerações a repensar as práticas tradicionais utilizadas neste campo e a nossa forma de consumo, substituindo-as por práticas ecológicas. Para ele, futuros designers devem criar soluções que transformem a indústria, criando soluções funcionais e ao mesmo tempo sustentáveis e socialmente responsáveis, utilizando a sua criatividade para desenvolver soluções éticas que considerem os impactos a longo prazo das suas criações. A finalidade deste apelo é, também, o incentivo a uma mentalidade que valorize a colaboração com a natureza em vez da sua exploração.
Este livro é uma ótima introdução ao biodesign, contudo é necessário uma análise mais aprofundada das barreiras culturais e estruturais na aplicação dessas tecnologias em uma sociedade baseada na produção linear. Outro ponto não explorado é se o biodesign atende às necessidades das pessoas mais vulneráveis, já que tecnologias mais avançadas nem sempre são de fácil acesso ou priorizam a justiça social.
O conteúdo do livro é acessível a diversos públicos, com ilustrações e imagens que facilitam a compreensão dos projetos. É uma escolha interessante para quem procura livros com exemplos práticos em vez de teorias de design, para enriquecer a imaginação e inspirar novas ideias.
Recensão de:
Giovanna Stefano
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2024-25