
Mifflin, Margot
Bodies of Subversion: A Secret History of Women and Tattoo
2019 (1997) New York
Power House books
Margot Mifflin, autora de Bodies of Subversion: A Secret History of Women and Tattoo, mergulha na história fascinante e multifacetada da tatuagem feminina, explorando a evolução dessa forma de expressão artística como uma prática de autoafirmação, empoderamento e desafio às normas sociais. Publicado pela primeira vez em 1997 e reeditado em 2019 com atualizações, o livro é considerado uma referência fundamental para quem deseja compreender a intersecção entre a arte da tatuagem e o seu design, as questões de género, identidade e transformação pessoal.
No universo da tatuagem, que durante séculos foi dominado por estereótipos e normas patriarcais, Mifflin destaca a persistência e a resistência das mulheres que, desde o século XIX, desafiaram as expectativas sociais e ocuparam espaço neste meio. Mais do que uma simples cronologia da tatuagem feminina, Bodies of Subversion apresenta uma narrativa crítica, oferecendo ao leitor uma perspetiva ampla que vai além da superfície estética. O livro é enriquecido com uma variedade de imagens históricas e contemporâneas, além de entrevistas com tatuadoras e clientes, o que confere uma autenticidade única ao estudo.
Para quem, como a autora desta recensão, possui um interesse pessoal e profundo pela tatuagem — seja como portadora de várias tatuagens, seja como aprendiz da técnica —, o livro de Mifflin surge como uma obra inspiradora. Não só aprofunda o entendimento sobre a prática, como também fornece uma base teórica do design e uma visão histórica que valoriza a tatuagem enquanto forma de arte e expressão pessoal.
Uma das forças da obra de Mifflin está na forma como documenta e analisa a tatuagem como uma ferramenta de resistência e transformação para as mulheres. O livro descreve desde as tatuagens tribais das mulheres nativas americanas e das polinésias, passando pelas tatuadoras de circo do século XIX, até ao surgimento de figuras pioneiras como Mildred Hull e Maud Wagner, que desafiaram as expectativas sociais do seu tempo ao se envolverem com tatuagens num contexto em que eram vistas como prática masculina e marginalizada. Assim, “Bodies of Subversion” destaca as mulheres que, contra as convenções, se apropriaram dessa forma de arte para reclamar a sua autonomia.
Ao examinar os diferentes períodos históricos, Mifflin ilustra como as mulheres usaram a tatuagem como uma linguagem pessoal e política, criando uma voz visual única. Nos anos 1960 e 1970, com o movimento feminista em ascensão, a tatuagem foi redescoberta como uma forma de expressão libertadora. Mifflin descreve como as mulheres usaram as tatuagens para desafiar os estereótipos de beleza convencionais, escolhendo desenhos que iam além do “aceitável” ou “feminino” segundo as normas da época. A autora mostra, assim, que a tatuagem feminina não é apenas uma prática estética, mas também uma manifestação das complexas questões de género e identidade.
Um dos conceitos mais profundos que Mifflin explora neste livro é o da tatuagem como um “design vivo”. A autora discute como as tatuagens se tornam parte integrante da vida das mulheres, adaptando-se às transformações do corpo e acompanhando as mudanças emocionais e psicológicas que fazem parte da experiência feminina. Para quem é tatuado ou trabalha como tatuador, esta perspectiva é particularmente interessante, pois reforça a ideia de que uma tatuagem não é apenas uma marca estática. Em vez disso, é algo que evolui e se transforma ao longo do tempo — um design vivo.
Mifflin apresenta relatos de mulheres que veem as suas tatuagens não apenas como ornamentos, mas como símbolos de eventos marcantes — desde o nascimento de um filho até à superação de uma doença. Essa noção de que a tatuagem é uma forma de arte que cresce e se molda com o corpo traz uma camada de complexidade e intimidade à prática, sublinhando a importância da experiência pessoal na criação e na receção de cada tatuagem. Para quem, como a autora desta recensão, vive a tatuagem tanto como portadora quanto como artista em formação, esta ideia de transformação contínua ressoa profundamente.
A obra de Mifflin também explora a intersecção entre a tatuagem e o feminismo, posicionando as mulheres tatuadas e as artistas como protagonistas num espaço cultural que desafia o mainstream. Ao destacar como a tatuagem feminina passou de um símbolo de marginalidade para um ícone de independência e estilo, Mifflin ajuda o leitor a entender como a tatuagem feminina evoluiu, especialmente nas últimas décadas, para se tornar um elemento valorizado e até mesmo desejado na cultura popular.
No entanto, Mifflin não ignora as controvérsias que rodeiam a prática, como o estigma que ainda existe em torno das mulheres tatuadas, mesmo nos dias de hoje. A autora faz questão de mostrar as contradições sociais em torno da tatuagem, abordando os obstáculos machistas que impõem a pureza nas mulheres, que muitas mulheres enfrentam ao escolher marcar os seus corpos e as diferenças de perceção entre géneros dentro deste universo.
Em resumo, Bodies of Subversion: A Secret History of Women and Tattoo é uma obra que transcende a mera documentação histórica da tatuagem feminina. Margot Mifflin oferece ao leitor uma análise crítica que coloca a tatuagem no centro de discussões sobre autonomia, resistência e transformação pessoal. O livro é especialmente relevante para quem, como a autora desta recensão, vê a tatuagem como um modo de expressão vital, uma extensão da sua identidade e um design vivo.
Para além de ser um recurso essencial para historiadores e estudiosos do género, a obra serve como inspiração para artistas e tatuadores em formação, proporcionando uma compreensão mais profunda da prática como uma expressão viva, moldada pelas experiências e mudanças do corpo e da mente. Através de uma narrativa envolvente e bem fundamentada, Mifflin estabelece um diálogo necessário entre a tatuagem e a identidade feminina, tornando este livro uma leitura indispensável para todos aqueles que buscam compreender a complexidade do design e a beleza da tatuagem feminina.
Recensão de:
Constança Sousa
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2024-25