Como ver coisas invisíveis

Minhós Martins, Isabel

Como ver coisas invisíveis

2021 Oeiras
Planeta Tangerina

Escrito pela autora Isabel Minhós Martins, ilustrado por Madalena Matoso e publicado em outubro de 2021, Como ver coisas invisíveis pode considerar-se um exemplo dos livros que integra uma linha editorial informativa da editora Planeta Tangerina, o qual trata da imaginação e criatividade como temática.

A autora começa por explicar o motivo do título peculiar e misterioso, expondo que de facto, todos nós já vimos coisas invisíveis, seja de olhos fechados ou olhar para uma parede branca, isto é, através da imaginação. Desvendado o significado do título, passamos para a seguinte questão: “Porquê um livro sobre a imaginação?” Algo bastante explícito na sinopse, bem como nos inúmeros exemplos ao longo do livro, é a valorização da imaginação e criatividade como ferramentas cruciais para construir um futuro melhor. Algo que para a autora é urgente nos dias de hoje, devido aos desafios complexos que enfrentamos, pois “muitas vezes não basta existir vontade ou dinheiro, são necessárias sempre boas ideias”.

Agora, iniciando verdadeiramente a viagem em que esta obra nos leva, somos deparados com uma outra questão: Como definir imaginação? A autora não se contenta com as definições dos dicionários; em vez disso, convida o leitor a participar numa experiência através da sua imaginação. Com este exercício, o conceito torna-se mais palpável e intuitivo, concluindo-se que imaginar trata-se de simular algo dentro de nós a partir de elementos da realidade que já conhecemos. Há quem use as palavras “criatividade” e “imaginação”, com o mesmo sentido, quase como sinónimas. Embora relacionadas significam coisas diferentes… posto isto, imergimos em mais uma experiência: “Imagina que estás a lavar a loiça. A tua cabeça está distraída. Não reparas que estás a ouvir, mas ouves: o rádio na varanda de um vizinho, o som da água no lava-loiça… “Os sons da minha cozinha”, pensas tu a certa altura. E depois pensas: “a coleção de sons da minha casa”. E vais por aí fora (…) “Giro, giro” diz a criatividade depois de ter ouvido a imaginação “era cada pessoa ter uma playlist com as suas coleções de sons. Assim, quando tivesses saudades de alguém ou de algum lugar, bastava ir escolher uma coleção e mergulhar nesse ambiente.” Ao longo do livro, uma perspetiva claramente predominante ganha forma: o processo de leitura deste livro funciona em espelho. Os exemplos que ilustram os argumentos e a informação transformam-se, pela sua leitura, em experiências que os comprovam e reforçam.

Após mais algumas curiosidades, prosseguimos para o consultório a fim de esclarecer dúvidas maiores. A estrutura empregue até ao momento, de texto expositivo-argumentativo – em que se apresentam ideias sustentadas em informações científicas, que se exemplificam com recurso ao pensamento de filósofos, artistas e cientistas que as legitimam – é quebrada, sendo acrescentado o questionamento permanente que se vai sugerindo ou afirmando ao longo dos capítulos, com especial destaque para o capítulo “Alguém tem dúvidas?”, integralmente dedicado a perguntas e a um médico fictício que as responde com dedicação. A introdução ao capítulo prepara-nos para esta abordagem diferente e pouco convencional: “As dúvidas costumam ser no final, verdade? No entanto, mesmo quando julgamos não saber nada, podemos saber já algumas coisas fundamentais.”

De seguida, entramos num capítulo dedicado ao processo que nos pode levar a ter e materializar ideias numa experiência criativa. O conceito de etapas e processo criativo levou-me a crer numa possível solução para um bloqueio criativo, porém sem alguém para testar esta teoria voltei a focar-me na leitura. Entre processos inconscientes e disparar ideias deparamo-nos com o conceito de “exaptação” o qual, relembra-nos a autora, não deve ser confundido com adaptação, algo que se verifica na Natureza como nos processos de seleção natural: as características que melhor servem um ser vivo vão se passando para gerações seguintes. Contudo, na Natureza também se verifica a exaptação e esta acontece quando um determinado elemento adquire uma função diferente da pretendida originalmente. Por exemplo, julga-se que os dinossauros desenvolveram penas por questão térmica – uma adaptação – porém algumas penas revelaram-se muito úteis quando alguns dinossauros tentaram voar – exaptação.

Esta informação cativou-me especialmente pela simples analogia feita entre este fenómeno biológico e o processo criativo e de imaginação em que inúmeras vezes o mesmo ocorre, tendo finalmente encontrado forma de o pôr em palavras. Este pequeno momento só confirmou ainda mais a ideia de que a escolha deliberada de situações quotidianas e experiências que todos reconhecemos, além de se dirigir diretamente ao leitor(a), transforma um tema complexo em acessível. Isto conecta o tema com quem lê, envolvendo a identidade e subjetividade de cada um. A validade da imaginação e da criatividade, que justificam o livro, são igualmente validadas pelo/a leitor(a) ao tornar-se interveniente no processo.

O capítulo “Uma história, uma experiência” convida-nos a experimentar alguns desafios que nasceram de dificuldades ou situações vividas por artistas, cientistas, pondo em prática a imaginação e a criatividade. Seguidamente, a autora proporciona um conjunto de sugestões de atividades com o intuito de promover o desenvolvimento e exercitar da nossa imaginação. Neste roteiro subjetivo a cada leitor(a), espelha-se não só o título do livro, mas também a experiência de ler e a ideia de que, assim como coisas invisíveis, essa experiência pode crescer, entrelaçar-se e relacionar-se a cada nova leitura.

Ao longo do livro verifica-se uma escrita atualizada e cuidadosa nas referências, oferecendo informação precisa e propostas acessíveis. A relação estabelecida entre o ato de ler e experienciar é a característica predominante e de destaque, algo único e cativante para qualquer um. A fluidez do texto é acompanhada pelas ilustrações que destacam conteúdos e os complementam com analogias ou perífrases visuais. As formas imperfeitas, a colagem de figuras que se enquadram ou destacam na página, a utilização (duma variação) das cores primárias, contrastando com o preto, o movimento e a ocupação variável do espaço vazio, tudo contribui para que a criatividade invada a informação, enriquecendo a experiência de leitura. A toda esta informação acresce uma última e inesperada parte em que as autoras, escritora e ilustradora, tomam a palavra para descreverem o processo de criação do livro, visto ser este o tema que guia o volume. Ao seu testemunho segue-se ainda o dos revisores, expondo três coisas que os inspiram.

Em suma, mais do que um manual sobre como “ver” o mundo, esta obra é um lembrete de que as coisas mais valiosas muitas vezes não se encontram à superfície, convidando-nos a questionar, a imaginar e a valorizar as nuances invisíveis que compõem a nossa realidade.

Assim, “Como Ver Coisas Invisíveis” transcende o papel de um simples livro informativo ilustrado, transformando-se num guia poético para uma viagem pela imaginação e criatividade. Uma leitura que inspira e ecoa na forma como experienciamos o quotidiano.

Recensão de:
Sofia Rosário

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2024-25

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