Design Noir: The secret life of electronic objects

Dunne, Anthony & Raby, Fiona

Design Noir: The secret life of electronic objects

2021 London
Bloomsbury Publishing

Esta obra, publicada em 2001, mergulha no âmbito da especulação e reflexão sobre o papel dos objetos eletrónicos no nosso ambiente sociocultural. Nela Anthony Dunne e Fiona Raby oferecem uma exploração profunda e provocativa sobre o conceito de “design noir”, uma abordagem que vai para além da funcionalidade convencional dos objetos e revela o lado “ sombrio” e muitas vezes negligenciado do design destes produtos eletrónicos que nos rodeiam, demonstrando como estes são capazes de alterar as dinâmicas de poder preexistentes na sociedade. Esta obra é considerada uma fonte primordial para a compreensão dos fundamentos teóricos e conceptuais do trabalho de Dunne & Raby.  

É composto por 5 secções: DIY realities; Hertzian Space; Design Noir; Designer as Author e, por último, The Secret life of electronic objects, onde é apresentado o Projeto Placebo, que explora narrativas desenvolvidas para explicar e se relacionar com as tecnologias electrónicas, em particular as ondas eletromagnéticas invisíveis que os objectos electrónicos emitem e como estas afetam os utilizadores.

Design Noir oferece uma exploração aprofundada de um dos projectos de design mais seminais das últimas duas décadas que, sem dúvida, iniciou a especulação através do design nas suas formas contemporâneas. Ao detalhar a lógica e o carácter dos objectos que foram construídos e o envolvimento dos utilizadores com estes ao longo do tempo, a obra apresenta o estudo de caso do projeto Placebo como um projeto muito mais complexo e subtil do que muitas vezes se pensa.

Os autores demonstram que os aparelhos de consumo são acompanhados de “acessórios” um pouco suspeitos. Em particular, as forças electromagnéticas que influenciam certos aspectos da nossa vida quotidiana. Estão por todo o lado mas são invisíveis; na maior parte das vezes não nos apercebemos delas, embora existam vestígios da sua existência à nossa volta: pessoas que sofrem de hipersensibilidade às ondas electromagnéticas, equipamentos de telecomunicações escondidos em pináculos de igrejas, etc. A interação com os produtos electrónicos de consumo também pode dar origem a narrativas peculiares e, sim, “noir” (como no género cinematográfico noir) que desafiam a conformidade da nossa vida quotidiana e não correspondem à coexistência perfeita com os gadgets – telemóveis, aparelhos de GPS, rádios – que os fabricantes prometem que desfrutaremos. 

Uma das críticas centrais do livro é direcionada ao design convencional. Os autores desafiam as abordagens tradicionais do design, que frequentemente se concentram exclusivamente na funcionalidade e resolução de problemas práticos. Em vez disso, Dunne e Raby propõem uma reavaliação radical do papel do design, questionando suas premissas fundamentais e instigando os designers a adotarem uma perspectiva mais imaginativa e crítica, uma vez que, a ênfase na funcionalidade pode limitar a capacidade do designer de criar objetos que vão para além da sua simples utilidade. Para os autores, os objetos criados não devem ser totalmente transparentes na sua função, promovendo a ideia de que a ambiguidade enriquece a relação dos humanos com os objetos eletrónicos.

Numa altura em que a tecnologia permeia todos os aspectos de nossas vidas, Dunne e Raby não apenas questionam as implicações éticas das escolhas de design, mas também destacam a responsabilidade dos designers na formação da cultura e na definição de valores sociais. Ao desafiar a noção de neutralidade tecnológica, a obra torna-se um veículo para uma análise profunda das ramificações culturais relacionadas ao design. Como leitora, senti que a narrativa especulativa utilizada pelos autores transportou-me para futuros possíveis, convidando-me a contemplar não apenas como os objetos eletrónicos moldam a sociedade, mas também como a mesma influencia a criação desses objetos. Por este motivo sinto que fez-me compreender de forma mais ampla como o impacto do design, em conjunto com a tecnologia, se propaga pelo tecido da sociedade contemporânea.

Por outro lado, o livro Design Noir: The Secret Life of Electronic Objects apresentou-me um desafio significativo devido ao seu estilo de escrita e referências que tendem a ser excessivamente abstratos. A complexidade intrínseca do conteúdo, em combinação à linguagem técnica e as metáforas elaboradas utilizadas pelos autores, dificultaram a compreensão direta dos conceitos apresentados. Além disso, também consigo imaginar que a natureza hermética das referências possa alienar outros leitores menos familiarizados com os temas específicos abordados, o que faz com que esta obra seja um terreno árido para aqueles que não possuem uma base sólida no campo do design e da tecnologia.

A falta de uma estrutura clara deste livro foi um frequente desafio para mim, pois a narrativa pareceu-me carecer de uma organização lógica e coesa. A ausência de uma progressão clara das ideias apresentadas fez-me sentir dificuldades em acompanhar o desenvolvimento dos conceitos apresentados. Além disso, existe a sensação de que os autores não fornecem uma orientação adequada para conectar os pontos-chave do livro. Na minha experiência, senti uma falta de transições entre os capítulos, contribuindo para uma leitura fragmentada e desordenada. A ausência de uma estrutura clara também faz parecer que os conceitos são apresentados de forma dispersa, facto que dificulta a assimilação e prejudica a eficácia do livro em transmitir suas mensagens centrais para um público sem bases no design. 

No que toca a aspectos positivos, o livro destaca-se ao explorar ousadamente as fronteiras disciplinares entre design, tecnologia e cultura. Os autores mergulham numa análise profunda que transcende as limitações convencionais dessas áreas, incentivando uma abordagem holística. Ao examinar o papel dos objetos eletrónicos na sociedade, o livro desafia a separação tradicional entre estes assuntos, promovendo uma visão interdisciplinar bastante interessante e enriquecedora. 

Acredito que com esta exploração das fronteiras disciplinares, a obra não apenas contribui para a criação de uma perspectiva mais abrangente sobre a relação entre o design e os objetos eletrónicos, como também impulsiona a inovação e o debate crítico através da forma como integra conceitos de diferentes campos do conhecimento, deste modo, desafiando paradigmas. Para mais, como aspeto positivo, não posso deixar de mencionar a capa e o design do livro em si. Acredito que contribuem para a sensação de “mistério” que está ligada à “vida secreta dos objetos eletrónicos,” tal como é explorado ao longo do livro. Apesar das dificuldades que encontrei durante a leitura do livro, Design Noir: The Secret Life of Electronic Objects emerge como uma referência fundamental para estudantes e jovens designers. A profundidade conceptual e a originalidade dos temas abordados nos livros são extremamente inspiradores para as novas gerações, promovendo o desafio dos limites criativos e conceptuais. A meu ver, este livro não serve somente como um guia e exposição de abordagens e projetos inovadores, como também instiga a reflexão crítica e capacita os jovens designers a moldarem um futuro mais consistente, progressista e ético num cenário onde o design e os objetos eletrónicos estão intrinsecamente ligados.

Recensão de:
Marina Nogueira

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

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