Design para um Mundo Complexo

Cardoso, Rafael

Design para um Mundo Complexo

2017 São Paulo
UBU

A obra Design para um Mundo Complexo foi publicada em 2011 pela editora Cosac Naify (São Paulo, Brasil). O autor, Rafael Cardoso, é escritor e historiador de arte. Esta obra nasceu no âmbito do curso ministrado pelo autor em algumas cidades sul-americanas (Brasil e México) entre 2007 e 2009. Embora não se considere um designer, Cardoso publicou já cinco livros na área do design.

Com uma escrita “cristalina e bem-humorada” (palavras do designer André Stolarski, escritas na contracapa do livro), Cardoso capta a atenção do leitor desde a primeira página, afirmando que “Este livro não tem prefácio. Não que o assunto não o mereça. É mesmo por opção. Vivemos em tempos apressados.” O autor frisa a necessidade da leitura de um livro, principalmente do objeto físico. A leitura é essencial ao combate da complexidade do mundo, marcada pelo excesso de informação, pela ignorância e pela mediocridade. 

Este livro, de duzentas e sessenta e duas páginas, está estruturado em apenas três capítulos extensos, sendo que a introdução e a conclusão ocupam uma parte significativa do volume. Inteiramente impresso em papel amarelo (kraft ouro, 30% reciclado), o livro afirma-se como um objeto luminoso e vibrante, que desperta a curiosidade do leitor. A capa, idealizada por André Stolarski, equivale a um desdobrável que envolve o volume. O verso do desdobrável é marcado por um padrão hexagonal que, através de inúmeras repetições, adquire uma dimensão espacial semelhante a uma rede e remetendo para um “mundo complexo”. No início dos capítulos o autor recorre à mesma estratégia. É visível uma ligação direta entre a estética visual e o conteúdo do livro, atraindo o leitor para a narrativa.

As ilustrações, originalmente de naturezas distintas, foram redesenhadas por Francisco França, obtendo-se assim uma uniformidade de linguagem. No entanto, esta estandardização suscita algumas dúvidas sobre a versão original dos objetos representados, havendo a necessidade de uma pesquisa adicional sobre os mesmos. Acresce ainda que as imagens surgem na página com algum desfasamento relativamente ao conteúdo textual que lhe é referente, podendo gerar alguma confusão no encadeamento geral da leitura. 

A par da sua componente imagética, o livro está bem referenciado com as mais de sessenta referências que apresenta nas páginas finais. Ao longo da obra, Cardoso refere múltiplos exemplos que ilustram, por vezes, a complexidade e o abstracionismo das temáticas exploradas. Temas como a forma, o objeto e o artefacto, a memória e a identidade, entre outros, tornam-se mais facilmente compreensíveis e adquirem uma forma quase “palpável”, visualizável pelo leitor. Estas escolhas narrativas tornam este livro acessível e democrático.

Quanto ao conteúdo textual, o autor começa por contextualizar o surgimento do design na revolução industrial, aliado ao pensamento funcionalista. Este pensamento é massificado durante a década de 1930, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, estas ideias são confrontadas no livro Design for the Real World (1971), do designer norte-americano Victor Papanek, que defendia o design social e ecologicamente correto e desprezava qualquer produto mal fabricado, perigoso ou simplesmente inútil. Em Design para um Mundo Complexo, Rafael Cardoso atualiza o debate proposto por Papanek, adaptando esta linha de pensamento a um olhar contemporâneo e tendo em conta o mundo em que vivemos hoje: a era da informação. Este livro tenta estimular o debate sobre o design, com o objetivo de o utilizar para transformar o mundo atual, cada vez mais digital e complexo. O autor procura rever alguns conceitos básicos como forma, função e significado, e demonstrar a mutabilidade das relações com as coisas.

Na introdução, Cardoso cita Sócrates: “Pode algo ser belo para qualquer outro propósito a não ser aquele para o qual é belo que seja usado?”. O autor critica, assim, a ideia de que o design tem de ser adequado ao propósito, conforme era idealizado pelos funcionalistas. Este pensamento é abstrato, tendo em consideração os fatores subjetivos em jogo, como a passagem do tempo e a experiência do utilizador. A forma é complexa, mas mais ainda a sua compreensão. Questiona o papel do design nos novos media como agregadores do “complexo”, mas afirma que “Não é da responsabilidade dos designers salvar o mundo.”, ao mesmo tempo que admite que reconhecer a complexidade do sistema imaterial do mundo já é um bom começo.

O primeiro capítulo “Contexto, memória, identidade: o objeto situado no tempo-espaço” começa por diferenciar entre o objeto e o artefacto. “Artefacto é um objeto feito pela incidência da ação humana sobre a matéria-prima: em outras palavras, por meio da fabricação”. Este assunto é ilustrado com os Arcos da Lapa (localizados no bairro da Lapa, Rio de Janeiro). Atualmente, este viaduto é um reconhecido símbolo turístico, no entanto, na época colonial, possuía a função de aqueduto. A forma deste “artefacto imóvel” não foi alterada, contudo a sua função depende não só do espaço que o circunda, como também do tempo, do contexto social, histórico e cultural em que se encontra.

Focando-se mais na esfera do design de identidade, Cardoso explora a memória e a experiência do utilizador como meio principal para a relação com os artefactos. A identidade é um atributo inerente a qualquer coisa, pessoa, empresa ou organização. A reconstrução da memória nas pessoas renova experiências, sendo essa uma das estratégias utilizadas pelas marcas na atualização das suas identidades, pois preservam os elementos e valores familiares ao utilizador.

No segundo capítulo “A vida e a fala das formas: significação como processo dinâmico”, o autor distingue alguns significados: função, funcionamento, funcional e operacional. Cardoso apresenta o relógio de pulso, que tem como principal função cronometrar a passagem do tempo. No entanto, quando se fala de “marcas famosas” de relógios, colocando-as na equação, o simples artefacto adquire um “valor agregado”, tornando a sua função em algo psicológico, de afirmação de prosperidade. Deste modo demonstra que a cronometração do tempo é apenas a sua funcionalidade.

O autor aborda o ciclo de vida dos artefactos, considerando o descarte, a re-significação e o pós-uso. À semelhança de Papanek, revela uma preocupação com a produção em massa que não minimiza o descarte e que pensa no processo linear de produção ao invés do processo circular (este mais otimizado para a reutilização).

No terceiro capítulo “Caiu na rede, é pixel – desafios do admirável mundo virtual”, Cardoso remete-nos para um tempo passado, no qual a internet não existia. A internet é um grande símbolo da contemporaneidade. O autor analisa a definição de “rede”, termo que já existe há muito tempo, mas que vai variando. A “rede” pode remeter para o metro de Londres. Com a passagem do tempo, esta já é referente a uma cadeia de produção. Todo o percurso de um determinado produto, desde o momento em que surge até ao momento em que desaparece é caracterizado pela constante necessidade de criar diferentes interfaces que sustentem esse percurso, que, num todo, acaba por ser a tal referida “rede”.

Na conclusão, seguindo o sentido crítico de todo o livro, o autor abre, de um modo informal, quase íntimo, a conversa ao leitor, que fará parte da “comunidade de designers” (estudantes e professores). Afirma que estudar na faculdade não é sinónimo de se ser um bom profissional: é preciso agir e partir para a descoberta do “mundo real”. Apela ao questionamento das coisas, para que não sejam aceites como verdades absolutas, tendo em conta que o mundo está em constante mudança, numa rede imensa de informação, onde nada é vinculativo. Para que um designer (ou outra qualquer pessoa) consiga ter efeito sobre a realidade complexa, é necessária a preservação da curiosidade e do pensamento crítico.

Esta é uma obra essencial a todos os que estudam e que ensinam esta disciplina. Apesar de já terem passados treze anos após a sua publicação, este livro permanece relevante, devendo ser incluído no panorama editorial da língua portuguesa. O mundo está em constante mudança e é interessante analisar a exploração feita pelo design e como este evolui. O autor atualizou o debate de Papanek, mas quem sabe se não haverá uma atualização do debate de Cardoso daqui a quarenta anos?

Recensão de:
Sofia Ribeiro

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

Desplaça cap amunt
Esta web utiliza cookies propias para su correcto funcionamiento. Contiene enlaces a sitios web de terceros con políticas de privacidad ajenas que podrás aceptar o no cuando accedas a ellos. Al hacer clic en el botón Aceptar, acepta el uso de estas tecnologías y el procesamiento de tus datos para estos propósitos.
Privacidad