
A obra Design para um mundo complexo de Rafael Cardoso oferece-nos uma análise profunda e, de alguma forma, provocadora sobre o papel do design na sociedade contemporânea. Num mundo marcado por constantes transformações, o autor convida-nos a repensar e a reformular (ou não) as funções (ou os deveres) do design. Essa ideia desafia, assim, as perspetivas tradicionais e realça a importância de um debate sobre as suas implicações sociais e culturais.
Cardoso inicia a sua reflexão ao falar sobre o seu próprio percurso e as suas ricas experiências que vivenciou em diversos cursos entre 2007 e 2009. Ele destaca a importância da colaboração e troca de ideias, uma característica essencial no desenvolvimento do pensamento crítico. O autor observa que “relativamente poucas pessoas se dispõem a ler um livro”, uma constatação que não aponta somente para uma apatia cultural mas também sublinha a urgência de haver um compromisso renovado com o conhecimento em tempos de superficialidade. Ao afirmar que “resignar-se com a mediocridade reinante é o primeiro passo para a morte da cultura que temos em comum”, ele estabelece um claro alerta sobre a necessidade de revitalizar a cultura e a educação.
Ao discutir sobre a evolução histórica do design, Cardoso aponta a disciplina como uma resposta à desordem causada pela Revolução Industrial. Ele defende que “o design nasceu com o firme propósito de pôr ordem na bagunça do mundo industrial”, uma afirmação que destaca a relevância do design na organização e sistematização de contextos complexos. No entanto, o autor não se limita a aceitar visões tradicionais que vêem o design apenas como uma função utilitária. Inspirado por pensadores como Victor Papanek, ele propõe que os designers devem sair dos seus próprios escritórios e enfrentar os problemas do mundo lá fora, reconhecendo que “os antigos problemas passam a ser dimensionados de modo mais complexo.”
Para Cardoso, a analogia entre medicina e design é particularmente poderosa. Ele sugere que, assim como a medicina evolui na compreensão das doenças, o design também deve evoluir, adaptando-se às várias nuances das realidades sociais contemporâneas. O autor critica a abordagem isolada do design, enfatizando que “no mundo complexo em que vivemos, as melhores soluções costumam vir do trabalho em equipa e em redes”. Essa ligação entre as partes de um sistema reflete uma visão holística que é crucial para entender como o design pode efetivamente impactar a sociedade.
Outro conceito central na obra é a ideia de “adequação ao propósito”, que Cardoso explora tendo como base a filosofia de Kant. Ele argumenta que a beleza e a funcionalidade devem estar intrinsecamente ligadas, o que contrapõe a visão simplista de que “a forma segue a função”. Afirma, ainda, que essa máxima torna-se vazia sem uma definição clara do que entendemos por “forma”. De forma particular, o autor destaca que a palavra “forma” pode referir-se a três dimensões distintas: “aparência” (como o objeto parece), “configuração” (como as partes do objeto estão organizadas) e “estrutura” (como o objeto é construído).
O Taj Mahal, por exemplo, demonstra que a forma de um edifício grande e complexo não pode ser compreendida através de um simples desenho, tal como Cardoso afirma. Mesmo utilizando diferentes técnicas (como a “planta”, a “elevação” e o “corte”), falta ainda muita informação para entender completamente a forma do edifício (como a cor, a textura e o tamanho). Este exemplo também me fez lembrar os iPhones, cujo design minimalista da Apple combina a funcionalidade com a capacidade de transmitir um senso de identidade, pertença e status social. O design do iPhone não é somente sobre ter um telemóvel funcional, mas sobre criar uma experiência emocional e simbólica que vai além do uso diário. Esta abordagem sugere que a forma não deve somente ser funcional: deve também expressar as lógicas construtivas que a fundamentam.
Não obstante, a discussão sobre a compressão do tempo-espaço, inspirada no geógrafo britânico David Harvey, leva o autor a afirmar que “determinar o significado de um artefato atualmente é tarefa tão escorregadia quanto atirar numa lebre correndo em zigue-zague”. Essa perspetiva salienta a fluidez dos significados num mundo em constante mudança; ao mesmo tempo convida a uma análise mais crítica sobre como percebemos e interpretamos os objetos que nos rodeiam. Esta noção é algo com a qual eu me identifico, especialmente numa era altamente ligada às plataformas digitais. Antigamente, o acesso à informação exigia o uso de livros e enciclopédias físicas, onde os significados dos objetos e informações pareciam mais fixos. Hoje, com a internet e as redes sociais, o que é considerado relevante e significativo é cada vez mais volátil, sendo influenciado por fake news e uma percepção manipulada. Isso exemplifica a “compressão do tempo-espaço” descrita por Cardoso, destacando como, atualmente, a interpretação dos objetos se torna mais suscetível à manipulação.
A memória e a identidade são também temas centrais na obra. O autor afirma que “a identidade baseia-se na memória: eu sou quem eu sou porque fui o que fui”. Esta afirmação sublinha a forma como a nossa perceção dos objetos e artefatos está profundamente ligada a experiências passadas. O autor clarifica essa visão com exemplos como os Arcos da Lapa, o icónico aqueduto do Rio de Janeiro; embora a sua estrutura física tenha permanecido inalterada, o seu significado evoluiu ao longo do tempo. A maneira como a forma pode adquirir novos significados desafia, assim, as noções rígidas de funcionalidade e destaca a importância de considerar o contexto social e histórico.
No que diz respeito às questões ambientais, Cardoso não hesita em abordar a crise do lixo. Por um lado, observa que “lixo nada mais é do que a matéria desprovida de sentido”, sugerindo que o ato de descartar está frequentemente relacionado à importância ou ao significado que as pessoas conferem a um objeto. Por outro lado, afirma que a recolha de resíduos pode transformar materiais descartados em objetos de valor, exemplificando que “o lixo de um é o luxo de outro.” Cardoso propõe que o design deve ir além da durabilidade e deve considerar o pós-uso, apresentando a importância de princípios de reversibilidade e manutenção para se criar objetos mais sustentáveis. Na minha visão, a fast fashion é um exemplo significativo da poluição global. Marcas como a Patagonia têm adotado práticas que envolvem o “ciclo de vida” completo dos produtos, incentivando a reciclagem e recompra de peças usadas. Isso demonstra como o design pode ser mais sustentável e responsável.
Além disso, o autor explora, ainda, a evolução do design no Brasil desde os anos 1960 e as várias discussões sobre o papel das escolas de design. Critica o método tradicional de ensino e defende a necessidade de “aceitar a complexidade como precondição em vez de combatê-la”, sugerindo que uma abordagem integrada e holística é a maior contribuição do design para enfrentar os obstáculos contemporâneos.
O autor convoca o leitor a “ilustrar-se” como uma forma de contribuir para um mundo melhor, enfatizando que o esforço individual na procura de conhecimento pode ter um impacto muito positivo na sociedade. Esse apelo à responsabilidade pessoal e coletiva reforça a ideia de que o design e a cultura são inseparáveis. Ele realça que a procura por esse conhecimento é uma forma de resistência contra a mediocridade cultural.
Em suma, Design para um mundo complexo é uma obra que transcende as limitações tradicionais do design e propõe uma reflexão profunda sobre a sua interseção com a sociedade, a cultura e o meio ambiente. Acredito que Cardoso inspira uma nova geração de designers a adotar uma abordagem crítica e consciente. O autor convoca os designers a agirem, afirmando que “não existem receitas formais capazes de equacionar os desafios da atualidade.” Para mim, essa é a mensagem central da obra: a responsabilidade do designer é, acima de tudo, um compromisso com a complexidade do mundo em que vivemos. Desta forma, a leitura deste livro torna-se essencial para todos aqueles que desejam compreender, transformar e fazer a diferença no campo do design contemporâneo.
Recensão de:
Beatriz Chapa
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2024-25