Designing for People

Dreyfuss, Henry

Designing for People

2003 New York
Editora

Um dos pioneiros mais influentes do Design Industrial, Henry Dreyfuss foi considerado uma celebridade do mundo do design nos anos 1930 e 1940. Notável pela sua abordagem ao design, que combinava engenharia, negócios, desenho, marketing, etc, na sua obra Designing for People, Dreyfuss partilha os seus métodos, crenças estéticas e visuais. Descreve o seu percurso pessoal como designer, com o objetivo de salientar a importância e responsabilidade da sua prática e como esta afeta e influencia as nossas vidas muito além das nossas expectativas. 

Um estudo sobre cultura, ergonomia e psicologia, ao longo de dezanove capítulos o livro decompõe ao pormenor o que é ser um designer industrial. Começando com um resumo dos momentos que o levaram ao seu cargo como designer com um estúdio próprio, o autor demonstra a relevância de todas as fases da criação de um projeto: da análise e testes meticulosos, observação dos comportamentos e gostos da população, à importância de networking, de falhar e voltar a tentar, de questionar o que já foi feito e de imaginar o que virá a ser. A obra é essencialmente um conjunto de experiências, opiniões e exemplos de trabalhos de Dreyfuss, que nos leva a olhar para o mundo que nos rodeia com uma visão crítica e minuciosa. 

É necessário contextualizar a obra, tanto como o próprio Dreyfuss, no espaço e tempo. A sua carreira profissional começou ainda nos anos 1920, uma época de prosperidade e inovação nos Estados Unidos, pós-Primeira Guerra Mundial, marcada por um crescente otimismo. Foi esta década que consolidou os EUA como uma potência mundial, onde o rádio se tornou parte da rotina diária, a aviação viu inúmeros avanços tecnológicos e as influências europeias trouxeram à população americana um gosto mais requintado pela arte, design e tecnologia. Dreyfuss criou o seu escritório como designer industrial em 1929, durante o crash da bolsa que deu origem à Grande Depressão que se estendeu pelos anos 1930. É durante este ambiente de recessão económica que o designer evidencia a sua abordagem: não bastava os produtos serem utilizáveis, era necessário otimizá-los, torná-los acessíveis a uma população com menos poder de compra, mantendo funcionalidade e eficiência acima de tudo mas também uma estética minimalista e moderna, que as pessoas quisessem comprar. O design tinha como objetivo a felicidade do consumidor, apenas assim as empresas conseguiriam manter-se no mercado. Notava-se, agora, a relação entre o design e as vendas, o design para o negócio.

Com isto, é também importante salientar o privilégio que Henry Dreyfuss tinha, não apenas pelas suas qualificações, mas pelo facto de ser um homem, branco, heterossexual, no auge do século XX. Com uma maior facilidade em alcançar um lugar entre grandes empresas, Dreyfuss utilizou estas oportunidades para revolucionar a vida quotidiana do americano comum. Foi ele que criou alguns dos produtos mais icónicos do século, como o termostato redondo da Honeywell, o telefone modelo 500 da Western Eletric, ou os aspiradores da Hoover. 

A obra em questão é surpreendentemente atual, acessível e fácil de ler, ao contrário de muitas outras obras literárias que tendem a complicar conceitos e vocabulários específicos ao tema. Dreyfuss escreveu este livro da mesma forma que abordava o design, com o utilizador comum em mente e de uma forma pessoal, humorística e simples. Embora seja direcionado ao design industrial, as mesmas lições adequam-se ao design de comunicação, engenharia, arquitetura, e qualquer área onde a relação entre o produtor e o consumidor seja um fator chave. O autor explicita a importância de analisar aspectos como a familiaridade e valor sentimental no design, essenciais à mudança de algo que já é aceite pela sociedade, tendo sempre como objetivo a felicidade. O designer tem um compromisso de servir o consumidor ou utilizador, partindo da cultura onde se insere e como esta influencia o seu gosto. Dreyfuss salienta, também, como o design é um processo colaborativo: “design is a process – an intimate collaboration between engineers, designers, and clients”. Quando aceitava uma proposta, o designer trabalhava em conjunto com os fabricantes e as equipas de engenharia das empresas para quem produzia, num ambiente amigável, próximo e livre para ter novas ideias.

Talvez uma das características mais impressionantes de Dreyfuss, era a sua capacidade de realizar projetos tão distintos. Para além dos objetos pelos quais é conhecido, Dreyfuss remodelou interiores de navios, criou mata-moscas, melhorou tanques de guerra, produziu exposições e até revolucionou o mundo do design gráfico, com o seu conceito de spreads nas revistas. Para tal, era necessário ter um processo definido pelo qual se seguia, o qual se define em cinco pontos: utilidade e segurança; facilidade de manutenção, preço, apelo ao consumidor e aparência. Além disso, Dreyfuss seguia também à regra o design inside-out: o processo do design deve sempre começar por dentro, pela maquinaria ou partes eletrónicas e apenas no fim se cria a casca do objeto, de modo a economizar do material e simplificar a sua estrutura; o design deve sempre ser óbvio através da sua forma, cor ou textura.

Por outro lado, visto que se trata de um livro com cerca de 70 anos, surgem algumas ideias antiquadas. Dreyfuss tinha, sem dúvida, uma visão capitalista e consumista que se via necessária à sua profissão. A sua carreira trata-se de uma carta de amor à produção em massa e ao desperdício, uma vez que os produtos se tornam obsoletos com o passar do tempo. Nota-se, também, o seu desdém pelo antigo e ornamentado. Para o designer, o minimalismo iguala-se a ter bom gosto, o que o motiva à uniformização e a procura obsessiva pelo luxo, com a expectativa que consiga simplificar a vida quotidiana ao extremo. Para além das questões de sustentabilidade, o sexismo está bastante presente na obra. Ao referir as mulheres, Dreyfuss classifica-as sempre como donas de casa ou trabalhadoras de centrais telefónicas. A mulher está sempre ligada à cozinha e à limpeza, e consequentemente, ao design de produtos que facilitem o seu trabalho doméstico. Ao contrário dos homens, agricultores, trabalhadores em indústrias ou militares, a mulher nunca é relevante fora de revistas femininas, roupa e eletrodomésticos, pondo em causa a imparcialidade do design industrial e a utilidade de objetos que não consideram os padrões femininos. Revela-se irónico que este grande designer, com uma abordagem tão contemporânea, uma grande preocupação com a cultura e o lazer, projetos icónicos e visões revolucionárias, não consegue projetar um futuro onde o homem ajudasse domesticamente e a mulher não se limitasse a uma cozinha.Em suma, Designing for People destaca conceitos imprescindíveis para o design, de uma forma sucinta e sensata. Há uma narrativa clara entre todos os tópicos abordados, e mesmo as questões éticas sobre a igualdade de género, consumismo e a preocupação com o ambiente servem como reflexão de como a cultura e os nossos ideais estão em constante mutação. Seja para apreciar a sua inesperada modernidade ou utilizá-la como um caso de estudo da cultura da época e como se traduz para a atualidade, é definitivamente uma obra de referência para qualquer designer ou artista.

Recensão de:
Bárbara Ribeiro

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

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