Designing futures: How Can Ethics Shape Design Theory and Practice

Henriques, Ana

Designing futures: How Can Ethics Shape Design Theory and Practice

2023 Lisboa
Editora

Designing futures: How Can Ethics Shape Design Theory and Practice, de Ana Henriques, é um livro publicado em 2023 pelo Centro de Investigação e de Estudos em Belas Artes, Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa (FBAUL), sendo o primeiro livro da coleção Design Matters. Ana Henriques é mestre em Design de Comunicação pela FBAUL, sendo este livro um resultado da pesquisa que efetuou no âmbito da sua dissertação de mestrado. 

Segundo a autora, o livro surge da crescente fissura no discurso que envolve a disciplina do design. À medida que são reveladas as falhas e deficiências inerentes às soluções do passado, torna-se imperativo repensar não apenas o presente, mas também o futuro do design. Sendo a autora formada em design de comunicação, as suas observações e exemplos dirigem-se mais para essa disciplina em específico. 

Inicialmente são expostas as falhas passadas no campo da ética do design. Começa por apontar a ausência de cultura política entre os designers, que resulta na falta de compreensão do impacto que determinadas criações poderão originar. Aborda as limitações e enviesamentos presentes nos estudos de design, destacando a exclusão sistemática de mulheres, perspectivas não ocidentais e abordagens feministas. Critica também a ideia convencional de sustentabilidade, argumentando que essa abordagem não considera as ações humanas irresponsáveis que contribuem para a crise ambiental. Porém, a principal missão desta obra é ir além da mera exposição de falhas passadas, procurando sugerir e, de forma proativa, proporcionar diversas perspectivas para a reflexão, tanto sobre os erros cometidos no passado quanto sobre as possibilidades de construir um futuro mais ético. A investigação empreendida levanta a questão: a existência de uma análise ética, consciente e minuciosa, como etapa inerente e a priori no processo de design, poderia ser a chave para orientar a teoria e a prática num campo em constante evolução? Assim, o cerne desta dissertação reside na questão sobre como a ética pode ser incorporada de maneira fundamental no design. A pergunta não é apenas sobre a possibilidade, mas sobre a necessidade de uma abordagem ética para moldar o curso do design contemporâneo. Esta obra propõe ser um guia no meio das incertezas éticas que permeiam o design. O quadro central da obra é uma exploração meticulosa da relação intrínseca entre design e a ética. Questiona-se não apenas sobre a natureza dessa relação, mas também sobre a forma que ela assume atualmente e sobre que formas deveria (ou não) assumir para se alinhar com as demandas éticas e sociais emergentes. Delineia ainda a necessidade de uma ética centrada no design, abrindo portas para direções inexploradas e propondo um potencial ponto de partida para o design ético do amanhã.

Designing Futures está estruturado em três partes – “Ethics, or What, Politics, or Why” e “Futures, or How estando cada uma dividida em sub-capítulos breves com temas específicos. Contém ainda um prólogo escrito pelo professor da FBAUL e Universidade Lusófona, José Gomes Pinto, assim como uma conclusão, acompanhada por reflexões sobre o processo de design da publicação. 

Embora reconheça que a obra apresenta uma abordagem ambiciosa ao papel do design na construção de futuros mais sustentáveis e colaborativos, identifico alguns aspetos negativos que impactam a sua eficácia e acessibilidade. Em primeiro lugar, a transição para um formato mais acessível ao público geral, como pretendido pela autora, não é totalmente bem-sucedida, deixando transparecer, por vezes, uma estrutura e uma linguagem mais densa do que o desejado. A excessiva contextualização e a redundância de algumas ideias contribuem para tornar o texto por vezes maçador, especialmente quando a informação já foi previamente apresentada em capítulos anteriores. Esta falta de síntese prejudica a fluidez da leitura e pode dificultar a compreensão das mensagens centrais do livro. 

Outro ponto de crítica está relacionado com a linguagem utilizada. Apesar do objetivo inicial de tornar a obra acessível, a linguagem apresenta momentos de densidade, o que pode afastar leitores menos familiarizados com os conceitos abordados. Este desafio na acessibilidade é particularmente evidente no prefácio, onde a linguagem pode tornar-se excessivamente técnica e afastar potenciais interessados:

What could be a strainer has now become something mechanical, artificial, dispositive. The “projector” has full faith in its intentionality; the purpose of objects becomes a form of absolutization of the subject that draws them. Therefore, the event that marks the world of objects manifests as artifice, an emulation without previous reference, and thus with no purpose. In a word: the void, or pure relativism, can be the destiny of any project, of any designed object.

Um aspecto de particular relevância surge na comparação com os livros do designer Ruben Pater The Politics of Design e CAPS LOCK. A semelhança no tom crítico em relação ao capitalismo e nos exemplos empregues, como a referência a Taylor Swift, pode suscitar comparações inevitáveis, prejudicando a perceção da inovação trazida por Designing Futures. A ênfase na promoção da colaboração e na criação de espaços coletivos para contrapor as tendências individualistas do capitalismo é louvável, mas a ausência de uma abordagem mais aprofundada sobre as dificuldades práticas desta transição limita a abrangência da obra. Apesar disso, o texto destaca-se pela sua abordagem multifacetada às teorias filosóficas éticas, rejeitando a estreiteza de uma única perspectiva. A autora propõe uma visão inclusiva, reconhecendo a importância de explorar diversas vertentes éticas, enriquecendo assim o debate e a compreensão do papel do design na sociedade.

Uma das contribuições mais marcantes da obra é a crítica incisiva ao sistema capitalista, entendido pela autora como um paradigma inescapável. Henriques não responsabiliza apenas o designer pelo seu papel na reprodução deste sistema, mas também estende essa responsabilidade ao cliente. Ao analisar sete códigos de conduta, destaca a ausência de ênfase nas responsabilidades dos clientes, sugerindo que estes também têm responsabilidades em relação aos designers e ao público impactado pelos produtos que resultam do seu trabalho conjunto. Conclui que estes documentos listam apenas as responsabilidades dos designers para com outros designers, os clientes, a audiência e a sociedade, esquecendo-se de mencionar as responsabilidades do próprio cliente. Nos capítulos dedicados especificamente aos clientes, a autora argumenta que isto implica, por omissão, que estes não têm responsabilidades. 

Henriques defende ainda o licenciamento da prática do design, visando fornecer aos seus profissionais uma camada adicional de proteção; para tal reconhece as complexidades inerentes às relações entre profissionais do design e os seus clientes. Porém, apela que seja também criada uma regulamentação da disciplina, tanto para designers quanto para as empresas que lhes encomendam trabalhos, especialmente no contexto de tecnologias emergentes com impacto na sociedade. Outro ponto de destaque é a proposta corajosa de reconfigurar os códigos éticos que permeiam o campo do design. A autora defende a “eliminação do design”, não como uma negação da prática, mas como uma chamada para repensar as práticas existentes. A ideia de que certos elementos prejudiciais devem ser não apenas apagados mas completamente eliminados, sugere um compromisso radical com a sustentabilidade e a responsabilidade contínua na criação e destruição inerentes ao design.

A autora também aborda a dificuldade intrínseca de definir códigos éticos para inovações tecnológicas, reconhecendo a natureza dinâmica e em constante evolução dessas criações. A autora defende a necessidade de remodelar a ética, indo além da conformidade com regulamentos e códigos de conduta tradicionais. O destaque na superação de visões convencionais e na abordagem do desconhecido mostra a importância de uma compreensão mais profunda da ética, indo além das simples diretrizes regulamentares. A obra propõe também separar a ética do design do ambiente académico, integrando-a diretamente à prática do design. Essa abordagem desafia a concepção tradicional de ética como um domínio exclusivamente académico, promovendo uma incorporação mais prática e relevante nas decisões quotidianas dos designers. 

A introdução da abordagem do “value sensitive design (VSD) e a exploração do design especulativo são ainda destacadas como inovações práticas. O VSD busca integrar princípios éticos ao design de tecnologia, considerando tanto os stakeholders diretos quanto os indiretos. Já o design especulativo, utilizando a ficção como ferramenta, surge como uma forma criativa de testar ideias e provocar reflexões, ampliando os limites da inovação ética no design.
Em suma, Designing Futures: How Can Ethics Shape Design Theory and Practice representa uma contribuição significativa ao campo do design ético, e em específico do design de comunicação, a disciplina a que a autora se dedica, apresentando uma abordagem multifacetada às teorias filosóficas éticas. Embora o livro apresente resquícios da tese de mestrado que o originou – nomeadamente a sua densidade de linguagem – introduz contribuições notáveis para uma reflexão sobre a prática do design, como a proposta do seu licenciamento ou a chamada para a “eliminação do design” em prol da sustentabilidade, bem como a introdução de abordagens inovadoras como o “value sensitive design” e o design especulativo. A obra destaca-se ao desafiar a concepção tradicional da ética como um domínio académico, propondo a sua integração prática na tomada de decisões diárias dos designers. No contexto das incertezas éticas que permeiam o design, propõe ser um guia valioso, promovendo uma compreensão mais profunda e uma prática ética para moldar o futuro do design. Como estudante de Design de Comunicação recomendaria esta leitura, principalmente como ponto de partida para uma compreensão dos desafios contemporâneos do mundo profissional do design.

Recensão de:
Alexandra Centeno

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

Desplaça cap amunt
Esta web utiliza cookies propias para su correcto funcionamiento. Contiene enlaces a sitios web de terceros con políticas de privacidad ajenas que podrás aceptar o no cuando accedas a ellos. Al hacer clic en el botón Aceptar, acepta el uso de estas tecnologías y el procesamiento de tus datos para estos propósitos.
Privacidad