
Digital Minimalism: Choosing a Focused Life in a Noisy World, escrito por Cal Newport, é considerado, por alguns, como um guia para orientar as pessoas numa época marcada por muita atividade digital. Newport, professor de ciência da computação e escritor, é conhecido pelas suas ideias sobre produtividade, tecnologia e foco na era digital.
Neste livro, Newport explora os impactos negativos da excessiva conectividade digital em aspetos como bem-estar, produtividade e saúde mental e advoga uma abordagem consciente e deliberada no uso da tecnologia, introduzindo o conceito de minimalismo digital. No entanto, não rejeita completamente a tecnologia, antes encorajando um uso estratégico e intencional de ferramentas digitais para supostamente melhorar as nossas vidas.
O autor discute o design no que toca aos produtos e serviços digitais relativamente ao seu impacto na vida das pessoas e aborda o modo como o design de tecnologias é frequentemente concebido para capturar e reter a atenção dos utilizadores de forma constante, levando muitas vezes a um uso excessivo e pouco saudável. Na sua perspetiva, o design deliberado dessas plataformas visa a maximização do tempo de engajamento, muitas vezes à custa da atenção e bem-estar dos utilizadores. Ou seja, as interfaces são projetadas com técnicas de engajamento, notificações incessantes e personalização para criar hábitos de uso contínuo.
Ao citar exemplos da vida real e estudos de pesquisa, Newport apresenta métodos práticos para que os leitores possam tentar recuperar o controle sobre as suas vidas digitais, promovendo um relacionamento supostamente mais intencional e com propósito com a tecnologia. O livro também propõe, a quem o lê, redescobrir os benefícios da solidão, do foco e da conexão humana inserida no mundo digital que, para alguns, é percebido como cada vez mais caótico.
Publicado em 2019, o livro tornou-se um sucesso de vendas e um best-seller do jornal New York Times, sendo muito bem recebido não só pelo seu público-alvo, mas também fora do mesmo. Devido à relativa abrangência temática, rapidamente começou a ser encontrado em listas de recomendação de leitura sobre os mais variados tópicos, desde a economia à filosofia e ao design – o que, em último caso, pode ser visto como publicidade mal direcionada (ou talvez direcionada de uma forma perspicaz) – e resultar numa experiência de leitura verdadeiramente frustrante. A presença desta obra em algumas listas de recomendação de livros sobre design e design crítico é verdadeiramente surpreendente, visto que o seu foco no design é apenas uma componente que sustenta uma filosofia muito mais abrangente.
Na verdade, o que Newport apresenta é uma nova filosofia de vida isenta de ocupações digitais ditas “distrativas”, num discurso que procura ser motivacional e incentivar a produtividade. Esta é uma produtividade muito promovida na sociedade capitalista, que incita mesmo ao abandono de ocupações lúdicas para que o indivíduo possa focar-se mais no seu aproveitamento profissional.
Além do mais, existe todo um sistema de valores escondido no movimento do minimalismo digital. O mais óbvio é o facto de se apresentar como um -ismo – ou seja, um tipo de movimento do qual se pode fazer parte, que muda a forma como se percebe o mundo e, em última análise, como se vive.
Talvez menos óbvio seja o valor que atribui a diferentes tipos de atividades. A sua afirmação de que se trata da “economia da atenção” (attention economy) atrai um certo modo de pensar que sugere algo como um jogo de somar: “gastamos” a nossa atenção numa coisa ou noutra e, uma vez “gasta” em algo, não podemos “gastá-la” novamente. Consequentemente, devemos “gastá-la” em algo “valioso” em vez de algo “sem valor”.
O que é visto como valioso nesta ideologia é o que Newport chama “atividades clássicas”: o trabalho que “produz” algo de “valor”, por exemplo, ler livros, trabalhar a madeira ou aprender um instrumento musical. No entanto, não é apresentado nenhum argumento concreto que justifique o facto destes tipos de trabalho serem inerentemente melhores do que outros, apenas é dada ênfase ao retorno externo que estas atividades podem gerar.
Ler um bom livro é gratificante a muitos níveis, mas ler um mau livro pode ser o oposto. O trabalho em madeira pode ser fonte de prazer e de criações belas e práticas, ou pode não ter o resultado desejado e causar frustração. Por outro lado, passar um dia de lazer a ver um filme, jogar um videojogo ou mesmo sem fazer nada, pode ser mais gratificante do que algumas das actividades clássicas defendidas por Newport.
Por esta razão, é possível deduzir que o critério do autor para determinar se algo é “valioso” e vale o nosso tempo é o retorno externo, seja este monetário ou de aceitação/validação (ou até admiração) por terceiros.
No que toca aos seus exemplos, o autor apresenta as comunidades Amish da América do Norte como um exemplo de uma vivência “desconectada”. Contudo, o autor deixa por mencionar o isolamento que esta vida sem tecnologia causa a estas comunidades cristãs anabatistas – tal isolamento incentiva o bloqueio da sua evolução como sociedade, mantendo crenças como a subjugação de mulheres aos homens, regras de vestuário e educação muito limitada.
Essencialmente, Cal Newport não oferece uma alternativa ao comportamento digital viciante, mas sim uma lista do que se deve fazer. Há uma falha na apresentação dos seus argumentos, no sentido de que o autor se esquece de os fundamentar devidamente, optando por uma abordagem mais holística que torna o leitor responsável por provar as suas propostas ao seguir os seus conselhos. Para além disso, a visão do minimalismo digital de Newport escolhe ignorar que a própria sociedade em que vivemos existe num contexto digital, o que significa que uma grande percentagem de pessoas depende dela, seja para trabalhar, seja para ter assistência médica ou seja para acesso à educação. A possibilidade de fazer uma “desintoxicação digital”, como o autor sugere, é um privilégio que a maioria não tem.Na melhor das hipóteses, o minimalismo digital apresentaria sugestões concretas sobre uma hipotética forma de viver. Mas, na verdade, a sua abordagem não passa de uma mera lista de “deve” e “não deve”. Digital Minimalism: Choosing a Focused Life in a Noisy World revela-se nada mais que um livro de autoajuda crítico do consumismo digital, otimizado para maior e mais fácil consumo, infiltrando-se em diferentes áreas temáticas para maximizar a sua abrangência de mercado.
Recensão de:
Sofia Feliciano
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24