
Steve Krug é um consultor de usabilidade com mais de 30 anos de experiência e que já prestou serviços para empresas do mercado digital como a Apple, a Netscape, a AOL ou a Lexus. Nasceu em 1950, tendo vivenciado não só a primeira era da computação, quando o apogeu da tecnologia era definido por interfaces analógicas, sistemas baseados em texto (DOS) e comunicação por FAX, como também uma época em que as bases da sociedade são gerenciadas por sistemas tecnológicos extremamente capazes e de baixíssima latência. Hoje, o simples facto de não detetar o telemóvel nos bolsos por alguns segundos pode ser causa de um dos piores – senão o pior – sentimentos de desespero e sofrimento da contemporaneidade.
Escrito originalmente em 2000, logo após o boom da popularização da internet, Don’t Make Me Think é uma obra que analisa a usabilidade em ambientes web de forma acessível e concisa. O livro traz dicas e insights a respeito de alguns conceitos básicos do design de experiência do utilizador (UX) como hierarquia, layout e navegação. Foca-se na busca por um fluxo de interação sem atrito, em que o utilizador não precisa pensar muito para atingir um determinado objetivo. Assim, a obra se torna útil para designers, desenvolvedores e qualquer pessoa que tenha ou trabalhe com um website.
No ano de 2023, o livro já conta com 3 edições: a segunda, escrita em 2006, acrescenta 3 capítulos à primeira; na terceira, Don’t Make Me Think, Revisited de 2013, o autor atualiza a segunda e acrescenta um capítulo sobre usabilidade móvel. A necessidade do lançamento de novas edições do livro surge da rápida evolução digital que ocorreu desde sua publicação, aliada ao elevado número de vendas. Tendo já superado a marca de 600 mil unidades, esta obra é hoje um clássico da usabilidade web.
O livro inicia-se com um capítulo que reproduz o título da capa: Don’t Make Me Think. Neste, o autor indica o que considera a primeira e principal lei da usabilidade: a web precisa ser auto-explanatória, ou seja, quando se trata de páginas na internet, o utilizador deve como usá-las sem muito esforço mental. O autor reforça que tudo deve ser evidente o suficiente para que “o seu vizinho, que mal sabe usar um botão de voltar, possa olhar para a página inicial do seu website e dizer “Oh, é um ____””. Esta forma do autor exemplificar e comunicar as ideias que insere no texto é recorrente no decorrer de todo o livro; a forma bem-humorada como introduz exemplos, desenhos e ilustrações tipo vinhetas de banda desenhada sobre usabilidade facilitam o entendimento das suas ideias e conceitos junto de um público-alvo alargado.
Krug explica que absolutamente tudo que necessite de algum nível de raciocínio para ser compreendido deve ser evitado ao máximo dentro da web. O utilizador em regra não lê um website, apenas escaneia rapidamente o que está na página. Desta forma, algo que faça o visitante ter de parar para pensar pode gerar atrito suficiente para que saia da página e vá para a concorrência. Neste sentido, o autor nem precisa abordar formulários complexos ou funcionalidades avançadas. Menciona o simples ato de, por exemplo, lermos o texto de um botão para, em primeiro lugar, percebemos imediatamente que se trata de um botão clicável e, em segundo lugar, o resultado da ação de carregar no botão, ou seja, o que ele faz.
O mesmo acontece com as formas de interagir com o meio digital. Os utilizadores não pensam detalhadamente antes de tomar uma ação na web; eles testam rapidamente várias possibilidades até, finalmente, conseguirem o que queriam. Demonstra-se assim a necessidade de introduzir durante todo o processo de uso padrões e convenções para que o utilizador, após descobrir como algo funciona uma vez, não precise mais procurar entender esse processo. Esta ideia é outro princípio que o autor destaca ao longo do livro.
Krug aborda ainda a necessidade de atenuar ao máximo o número de opções do utilizador dentro de um fluxo de interação, tais como formulários ou páginas de pesquisa e filtragem. Tal princípio é fortemente fundamentado na lei de Miller, considerada uma das principais leis de UX, em que o psicólogo George Miller discorre sobre a capacidade média do ser humano de processar no máximo 7 agrupamentos de informação de cada vez. Seguindo esta lógica, a partir de 8 possíveis escolhas de botões (opções de carregar) numa página, sejam elas campos de pesquisa, filtros, botões ou até mesmo links e seções, o utilizador deixa de processar o total da página, ignorando elementos de informação.
Nos capítulos seguintes, após já estar definida a fundamentação em que se baseia o estudo do livro, o autor dá exemplos mais práticos sobre a usabilidade na web. O primeiro capítulo desta seção aborda o design da navegação. Em síntese, o autor mostra como na internet é necessário comunicar com o utilizador, de forma permanente e anunciada, a “localização” em que ele se encontra, isto é, em que subpágina de um website ele está, como ele foi parar ali, e o que ele precisa fazer para chegar onde deseja. Consequentemente, o autor aborda os breadcrumbs1, fazendo paralelos da sua utilização com sinais de trânsito.
Por fim, Krug exemplifica a elaboração da homepage2 de um website. Mesmo trazendo conceitos que atualmente já estão de certa forma defasados, através de uma abordagem que visa mais entender os princípios em vez de seguir tendências, ele consegue passar uma mensagem que segue atualizada até hoje. Além disso, este capítulo inclui uma seção em que o próprio leitor analisa, juntamente com o autor, alguns dos websites mais famosos da época.
Seria fácil imaginar que, passados 23 anos do lançamento original e 10 anos da última edição, o livro já estaria completamente desatualizado face às tendências atuais. Porém, o método de abordagem de Krug, muito focado em princípios do design e leis da usabilidade, envelheceu como um bom vinho nestas últimas décadas: não há praticamente nada no livro que tenha deixado de ser verdade. Obviamente alguns exemplos e imagens do livro, como o próprio site da Amazon, bastante abordado no capítulo sobre os breadcrumbs, já não existem ou estão visualmente muito diferentes. Em todo o caso, dentro do que o autor se propõe a abordar, ou seja, naquilo que é o núcleo do que ele considera a base da usabilidade web, tudo permanece atual e assertivo.
Contudo, apesar do texto ainda ser atual no conteúdo que apresenta, a evolução da web já incorporou alguns outros conceitos que não são abordados no livro. Talvez por datar de uma época em que os websites eram estáticos, isto é, ao carregar em uma ligação, a próxima página já era inteiramente carregada, e não haviam conceitos como estados de carregamento, erro ou até mesmo autenticação3, a obra não aborda questões um pouco mais complexas – como formulários longos ou feedbacks – o que seria de grande valia para o ensino e prática atuais.Em suma, apesar de já demonstrar a sua idade, Don’t Make Me Think de Steve Krug continua a ser um ótimo ponto de partida para quem deseja estudar usabilidade em geral. Mesmo tendo menos de 200 páginas, o livro brilha ao explicar as principais regras da usabilidade de uma forma extremamente didática e acessível, permitindo a qualquer pessoa que trabalhe com web o entendimento base necessário para o design de websites bons e acessíveis.
- Uma série de links que denotam o caminho até chegar na página onde o utilizador está. São comumente utilizados na web até os dias atuais. Exemplo geral: “Página Principal > Sobre > Como fomos criados”.
- Página inicial de um site. Geralmente é a página que entramos ao carregar no link de um website no Google, por exemplo.
- Processo de segurança para garantir a veracidade do utilizador. Geralmente atrelado a um nome de usuário e senha.
Recensão de:
Guilherme Marcondes
Licenciatura em Engenharia Informática, IST
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24