Electric Dreams: Designing for the Digital Age

Redhead, David

Electric Dreams: Designing for the Digital Age

2004 London
The V&A Museum

David Redhead, escritor especializado em design, artes visuais e negócios, iniciou a sua carreira no ramo do design nos anos 1980, na consultoria Fitch. Posteriormente procurou integrar-se ainda mais nesse campo ao se tornar editor-colaborador da revista Blueprint (na qual conquistou posteriormente o cargo de editor-chefe) e mais tarde diretor da revista Design e colunista da Design Week. Marcou ainda presença em jornais britânicos de renome. É também o autor dos livros Products of our Time (1999), The Power of 10: ten products by ten British product designers (2001) e, a obra à qual a recensão é dirigida, Electric Dreams: Designing for the Digital Age (2004).

Esta obra faz parte de uma série publicada pela rede britânica de museus V&A Contemporary. Nesta, a principal premissa consiste na exploração e questionamento do papel do designer enquanto criador. Complementarmente, é também celebrada a criatividade moderna e a diversidade da área, abrindo sempre espaço ao leitor para ponderar sobre o futuro desta prática e do mundo que a acolherá. 

Electric Dreams conta com 130 páginas e é dividido em quatro capítulos. Estes, por sua vez, são marcados por uma componente crítica e informativa. Isto é feito com o auxílio de entrevistas com designers e comentadores, bem como apoiado por imagens fornecidas por esses mesmos designers e fabricantes. A obra aborda as constantes transformações sofridas no design dos produtos eletrónicos entre os anos 1980 e 2000. É nos apresentado, com o acompanhamento do contexto socioeconómico, o percurso que durante estas duas décadas foi realizado para sair do registro “monocromático” que os produtos de 1900 possuíam, e entrar num mercado cheio de formas e cores do século XXI. Algumas temáticas são ainda reservadas para orientar o leitor sobre o processo criativo e progresso de algumas marcas no mercado como, por exemplo, a Samsung, a Apple e a Nokia. Esta obra é dirigida aos designers, consumidores ávidos e para todos aqueles que se interessam pela tecnologia, pelo design contemporâneo e pela moda (tópico que Redhead evidencia que veio revolucionar este mesmo campo).

O livro inicia-se com um prefácio de três páginas onde o leitor tem o seu primeiro contacto com a editora da série, Jane Pavitt, que fala sobre o propósito da mesma. Uma citação do designer Tim Brown abre o primeiro capítulo: “Antigamente o design era sobre a projeção de objetos. Hoje é sobre a antecipação de comportamentos. Os designers precisam ser diretores de cinema e não escultores.”1 Esta frase vem servir como ponto de partida do mesmo, onde o papel do designer é posto em causa de forma constante. Já há quarenta décadas os designers procuravam prever os desejos futuros dos consumidores. Isto verificou-se, por exemplo, quando Thomas Edison inventou a lâmpada. Este estava ciente que o que lhe iria valorizar a descoberta no mercado não era a curiosidade de como a sua invenção funcionava, ou como a descobriu, mas sim o que poderiam fazer com ela. Por palavras de Richard Seymour, fundador da consultora de design Seymour Powell, “Eles tinham de antecipar os comportamentos emergentes que as novas tecnologias tornarão as pessoas capazes e como elas escolherão usá-las.”2 Ao longo do capítulo o autor mostra-se defensor de todos aqueles que se guiavam por esta linha de raciocínio. Defende-os de consultores de zeitgeist que olhavam para este tipo de projetos como peças de arte, devido ao seu aspecto, falta de relevância no mercado e preços elevados. 

O segundo capítulo é reservado exclusivamente para a Apple. É apresentado o caminho percorrido pela marca até ao maior dos lançamentos de produtos eletrónicos da época: o iMac. Indicando ao leitor como a Apple fez os consumidores adorar os computadores pessoais, o autor reflete como cada passo tomado por esta empresa foi decisivo para o seu sucesso. Desde o logotipo user-friendly, de letras minúsculas, aos interfaces mais subtis baseados em “prioridades humanas”. Adicionalmente, é mencionada a grande estratégia aplicada no lançamento do iMac: a “fashion card”. Neste computador, o plástico translúcido colorido da parte traseira surgiu das tendências europeias do design de interiores. Graças ao seu considerável sucesso, a Apple ampliou a tendência e influenciou outros setores como, por exemplo, as cestas de roupa de duas pegas. A ideia de fashion statement afirmou-se gradualmente no mercado. O terceiro capítulo analisa o percurso atribulado entre o surgimento e o rápido desaparecimento dos Personal Digital Assistants, onde até a Psion, que controlava 90% desse mercado, em 2004 já não existia sequer enquanto fabricante de hardware. Finalmente, no quarto e último capítulo, é mencionada a reinvenção do telemóvel que passa de talking bricks a “acessórios culturais com estilo” da nova era. 

Electric Dreams inclui características louváveis, como o vasto número de exemplos, referências visuais e temáticas atuais. Possui ainda a capacidade de abordar informação sobre este nicho dos produtos eletrónicos de forma simples e acessível. No entanto, existem algumas falhas. Embora, num momento inicial, o autor demonstre muito apreço pelos projetos mais “alternativos”, geralmente de designers “employed in-house”, ele acaba por os desvirtuar, encerrando o capítulo a afirmar que estes podem ser ultrapassados em poucos anos, comparando-os até mesmo aos “brick phones”. Esta opinião parece-me falha uma vez que, possuindo o autor oportunidade de presenciar o rumo que os produtos eletrónicos estavam a tomar e a se desenvolver, não compreendo que deixe de apurar a magnificência e individualidade criativa (que ele diz apreciar) daqueles objetos. O mesmo acontece quando Redhead termina o quarto capítulo com um discurso pouco positivo perante a firmeza e insistência que as marcas apresentavam ao explorar a imagem dos telemóveis. Ainda que tenha terminado com a frase “Podemos só esperar que eles sejam capazes de enfrentar o desafio”3, deixou bastante claro o quão as pessoas ainda “não amavam o telemóvel” e o quanto “(…) as máquinas superficiais e brilhantes que as forças da moda e marketing criaram fez pouco para mudar esta imagem anti-social.”4 Apesar do descontentamento expresso pelo mesmo, a verdade é que em 2002 tinha já sido lançado o segundo smartphone, o Palm Treo 180 da Handspring, que fizera algum sucesso entre os consumidores num mercado cada vez mais promissor. Curiosamente, o primeiro iPhone foi lançado três anos após a publicação deste livro, tendo sido recebido com entusiasmo pelas pessoas.Em suma, a obra Electric Dreams: Designing for the Digital Age destaca-se por ser tão completa quanto enriquecedora, graças aos seus exemplos icónicos e memoráveis. Quanto ao seu tom crítico (por parte do autor ou de comentadores), este possibilita-nos, enquanto leitores, conquistar alguma independência para construir a nossa própria opinião sobre as diversas perspectivas e acontecimentos apresentados.

  1. “Once design was about designing objects. Now it’s about anticipating behaviours. Designers need to be film directors rather than sculptures.”, p. 8 (tradução Roberta Miranda)
  2. “They need to anticipate the emergent behaviours that new technologies will make people capable of and how they will choose to use them.” p. 40
  3. “We can only hope that they are capable of rising to the challenge.”, p. 123
  4. “(…) the shiny and superficial machines that the forces of fashion and marketing have created have done little to shift this antisocial image.” p.123.

Recensão de:
Roberta Miranda

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

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