Emprecariado – Ninguém está a salvo. Todo mundo é empreendedor

Lorusso, Silvio

Emprecariado – Ninguém está a salvo. Todo mundo é empreendedor

2023 São Paulo
Clube do livro do design

Escrito pelo professor e artista italiano Silvio Lorusso e traduzido para português brasileiro por Eduardo Souza, este livro é a segunda publicação do Clube do Livro do Design, editora coordenada pela renomada designer Tereza Bettinardi. Expõe as tensões do mundo do trabalho, da produtividade, da autonomia e do fracasso ao questionar o papel da criatividade nesse ambiente que mistura o entusiasmo da start-up e a ansiedade do precário. Lorusso argumenta que no “emprecariado”, um neologismo das palavras empreendedor + precarizado (entreprecariat no seu neologismo original, em inglês), designers e outros profissionais criativos são exigidos a “hackear a mente” o tempo todo para pensar positivamente enquanto lidam com incertezas e perseguem suas ambições. O autor argumenta que, ao buscar uma identidade profissional que se destaca das outras pessoas, corremos o risco de nunca formar um senso solidário do nosso ofício. O neologismo que concebe o título, por si só, já sustenta o viés que o livro irá tomar: A profissão autônoma com a falsa sensação de liberdade. O reforço do tema sobre terceirização e individualismo já é observado ao ver o livro físico, uma capa preta que contém autocolantes para que o leitor monte a capa à sua maneira, que pode ser interpretada como uma alusão à falsa sensação de liberdade no mundo do trabalho autônomo. 

Este é dividido em três grandes capítulos: Valores Essenciais, Ativos e Plataformas. No capítulo Valores Essenciais, Lorusso explora o surgimento do espírito empreendedor, sua influência na sociedade e, finalmente, a quebra das expectativas em torno dessa narrativa de sucesso. O culto aos considerados grandes empresários como Elon Musk e Jeff Bezos e o seu respectivo unternehmergeist – palavra em alemão que o autor utiliza bastante nesse capítulo, a qual, em tradução livre, seria uma espécie de “espírito empreendedor” – coloca tais bilionários em um patamar de classe muito distante do restante da sociedade. Em uma das passagens que sintetiza seu argumento de anseio pelo “emprecariado”, Lorusso afirma que quando o espírito empreendedor alcança as pessoas, este torna-se um empreendedorialismo. Se entendermos a palavra empreendedor como uma prática de gerir um negócio e tomar ações em meio a riscos, para a sociedade ele chega como um sistema de valores reforçado por uma colonização da linguagem que se dá no discurso midiático e sua internalização individual. Ainda no contexto ético do discurso empreeendedor, é interessante observar o recorte de classe que o autor explora neste capítulo, em que basicamente o sujeito que compõe o emprecariado é a classe média cuja precariedade se encontra em formação. Porém, vista por um ângulo de estratégias de posicionamento por membros e instituições que os representam, essa classe está fadada ao fracasso iminente.

No capítulo Ativos, Lorusso fala sobre a relação de trabalho com ferramentas de produtividade, espaços de trabalho e psicologia em um mundo conectado mundialmente e repleto de redes sociais programadas com uma rolagem infinita, com o intuito de maximizar o tempo gasto em seus aplicativos. Ferramentas como o método Pomodoro. Criado pelo empresário Francesco Cirillo, é uma técnica de gerenciamento de tempo que consiste em dividir o trabalho em blocos de 25 minutos, chamados ‘pomodoros’, intercalados com pausas curtas de 5 minutos. A premissa é simples: ajudar as pessoas a manterem o foco e a gerenciarem melhor seu tempo. No entanto, segundo Lorusso, ferramentas como essa podem acabar sendo contraproducentes. Em vez de facilitar a execução das tarefas, elas podem gerar uma obsessão pelo cumprimento rígido dos intervalos, desviando a atenção do objetivo principal: a realização da própria tarefa. Essa dinâmica pode levar ao que ele chama de ‘vício do Pomodoro’, onde o foco se desloca do trabalho em si para o cumprimento do método, prejudicando a produtividade de forma paradoxal. A questão é que Lorusso questiona até que ponto essas ferramentas estão de fato sendo benéficas, uma vez que, quando não ocorre um limite entre trabalho e lazer, o sentimento de nocividade a procrastinação vem à tona. Com o advento da tecnologia, o autor afirma que o trabalho ultrapassou fronteiras temporais (quando se trabalha) e espaciais (onde se trabalha) e como isso influencia inclusive os espaços habitacionais. Podemos traçar um paralelo com a própria realidade vivida em Portugal nos últimos anos, onde segundo especialistas um dos motivos da crise habitacional é justamente a pressão imobiliária do nomadismo digital, que acaba por inflacionar os preços da habitação. Por fim, é traçado uma relação entre trabalho e o conceito de positividade tóxica. Lorusso utiliza o famoso meme “Hide the Pain Harold”, uma imagem de banco de imagens de um senhor com um sorriso entre o verdadeiro, o fingido e o forçado – as interpretações são infinitas – para, de forma provocatória, argumentar que este seria uma espécie de “divindade tutelar do precariado”.

No último capítulo, Plataformas, Lorusso aborda como as plataformas online, em vez de serem um refúgio da lógica empreendedora, acabam intensificando a precariedade da intitulada gig economy. A promessa de flexibilidade e agilidade nesses espaços, como exemplificado pelo Fiverr — marketplace de freelancer com serviços a partir de 5 dólares — esconde a realidade de um trabalho desvalorizado e sem originalidade. Outra plataforma que acaba por receber várias críticas do autor é o LinkedIn, uma rede de contatos com profissionais ao redor do mundo que segundo Lorusso é uma rede social com vários problemas de superficialidade causados pelos seus utilizadores. No entanto, a sua crítica mais pertinente é voltada ao trabalho: a mentalidade empreendedora no LinkedIn fomenta a criação da “marca pessoal”, no qual sua eficácia é constantemente medida e ranqueada. Algo similar com o que ocorre, aliás, no episódio Nosedive da série Black Mirror. O enredo gira em torno de uma sociedade imersa num esquema de avaliação de 5 estrelas, onde as pessoas se avaliam constantemente, e que essas notas determinam acessos a recursos e status social. Lacie Pound, uma mulher com uma boa nota de 4,2, fica obcecada em aumentar sua pontuação para 4,5, a fim de garantir um apartamento de luxo. Ela planeja conseguir isso impressionando os convidados no casamento de sua amiga Naomi, que tem uma pontuação alta. No entanto, uma série de contratempos faz sua nota despencar, levando à humilhação pública. Apesar de se tratar de uma ficção em futuro distópico, Nosedive lembra imensamente o mundo em que vivemos hoje, sob o constante julgamento das redes sociais.

Mesmo se tratando de um tema complexo, a linguagem de Lorusso em Emprecariado é perspicaz e instigante, o que torna o livro não apenas fácil de digerir, mas também atraente. O autor acerta ao escolher uma linguagem informal através de usos de memes extremamente satíricos e provocadores que se prolongam ao longo dos capítulos. Apresenta um viés político no livro muito alinhado com as perspectivas de pensadores contemporâneos anticapitalistas como Mark Fisher e Guy Standing. Embora a temática gire em torno da precarização focada no mercado criativo, recomendo a leitura a quem se interessa politizar e ouvir uma voz oposta ao “sujeito oculto” do mercado de trabalho. Com diversos exemplos práticos do cotidiano, facilita bastante o processo de entendimento das suas teorias. Não obstante, apesar de oferecer uma análise contundente das armadilhas do empreendedorismo moderno, a falta de soluções de Emprecariado pode deixar o leitor desanimado. A abordagem de Lorusso, embora perspicaz, pode deixar – talvez intencionalmente – o leitor sem esperanças, mas também frustra quem busca mais clareza ou orientações práticas.
Por fim, destaco o primoroso trabalho da designer Tereza Bettinardi e de sua equipe, que, enfrentando os desafios de gerir uma editora independente, conseguiram produzir um livro visualmente e editorialmente impecável. Participar do financiamento coletivo que tornou possível a publicação de Emprecariado foi, para mim, uma forma de contribuir para a ampliação da bibliografia sobre design gráfico em português, algo de grande valor para a nossa comunidade.

Recensão de:
Bernard Gerber

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2024-25

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