
Ellen Lupton é uma designer, escritora, curadora, crítica e educadora norte-americana que escreveu vários livros determinantes para a prática do design, focados maioritariamente nas questões tipográficas.
Em 2021, publicou o livro Extra bold: a feminist, inclusive, anti-racist, nonbinary field guide for graphic designers, que tem uma abordagem mais holística face ao design, debatendo as questões de diversidade e inclusão dentro da sua prática. A obra, editada pela Princeton Architectural Press, foi elaborada a partir de uma colaboração com um conjunto de outros autores e artistas, entre eles Farah Kafei, Jennifer Tobias, Josh A. Halstead, Kaleena Sales, Leslie Xia e Valentina Vergara. A ideia para o livro surgiu em 2018, após uma conferência organizada por Farah Kafei e Valentina Vergara acerca da falta de reconhecimento das designers mulheres no Pratt Institute, a escola onde estudaram design.
Neste sentido, a intenção dos autores desta obra refletiu-se em desconstruir a narrativa que vigora nas faculdades que enfatiza uma prática e história de design centrada numa perspetiva maioritariamente masculina e branca. Assim, o livro pretende oferecer ao leitor uma visão muito mais abrangente, inclusiva e realista desta profissão, através do relato das experiências de designers com os mais variados backgrounds, etnias e identidades. O próprio título do livro – Extrabold – é uma escolha bastante apelativa e pertinente já que se correlaciona com o universo tipográfico e, portanto, com o universo do design em paralelo. Adicionalmente, é uma expressão associada a algo importante, que funciona eficazmente para chamar a atenção do leitor para o conteúdo do livro.
Dividido em três secções – teoria, história e trabalho – o livro está estruturado segundo uma lógica não linear, já que pode ser lido pela ordem que o leitor preferir, sem perder assim o seu sentido ou compreensão. Inicialmente, introduz-se um pequeno texto que explica o contexto e as intenções dos autores com a obra, listando-se inclusive os nomes de todos os seus colaboradores. Ao longo da restante publicação e capítulos, são usadas diferentes tipologias de texto e conteúdo, desde textos explicativos a biografias, entrevistas, apresentação de projetos, experiências pessoais, listas de termos-chave, etc, que juntos fornecem ao leitor não só um entendimento mais geral do tema, mas também geram uma leitura mais dinâmica e leve.
É de salientar que todos estes conteúdos são visualmente explorados através de ilustrações, gráficos que sintetizam relações e problemas, projetos de artistas ou pequenos desenhos sistemáticos e explicativos, os quais enriquecem a obra com uma fluidez e uma vertente didática que facilita a compreensão dos assuntos. Existe também uma forte personalização dos textos já que, nos momentos em que são relatadas histórias e testemunhos de artistas, estes são acompanhados pelo retrato ou ilustração dos mesmos. Isto resulta numa maior aproximação do leitor ao autor do respectivo texto, que assim consegue visualizar a pessoa real por detrás do relato.
A nível temático, o livro começa pela secção intitulada teoria, que expõe e familiariza o leitor com diversos conceitos desenvolvidos ao longo do livro, como o feminismo, o racismo, a interseccionalidade, as deficiências, as identidades de género, a orientação sexual, etc. Deste modo, explora-se em primeiro lugar a natureza e os significados de todas estas questões para que posteriormente se possa questionar o papel e a influência que cada uma acarreta para o mundo do design, sobretudo na medida em que podem constituir fatores ou pretextos para discriminação e preconceito. Problemáticas como para quem é que fazemos design ou como podemos fazer produtos que sejam úteis e direcionados a públicos-alvo específicos são exemplos de questões colocadas e desenvolvidas neste capítulo. Uma ideia também aqui reforçada pelos autores é o facto de muitos designers serem continuamente incentivados a seguirem uma audiência mainstream, que é governada pelos princípios eurocêntricos, o que acaba por resultar numa estética padronizada que descarta influências culturais.
Seguidamente, no capítulo história, os autores exploram o contexto histórico associado ao design, através de um ângulo que enfatiza as recorrentes práticas discriminatórias e que procura amplificar as vozes e as histórias de minorias que não são reconhecidas ou faladas, apesar das suas significativas contribuições para a profissão. Neste sentido, este capítulo é testemunha da forma como pessoas de diversas identidades e backgrounds sempre estiveram ligadas ao design, ao contrário do pressuposto de que esta sempre foi uma profissão do “homem branco”. Os autores conseguem, deste modo, edificar e fundamentar uma nova história do design, preenchendo as lacunas que se fazem sentir nos programas educativos vigentes.
O último e o maior capítulo do livro é dedicado ao mercado de trabalho, oferecendo uma perspetiva mais prática e atual face ao exercício da profissão de design. Para além de serem expostos e explicados os processos inerentes, os ambientes, os sistemas hierárquicos e as tipologias de trabalho no mundo profissional, o foco central do capítulo alinha-se com as inequalidades, as injustiças e as formas de discriminação que se fazem sentir nestes contextos. Juntamente com as vozes de muitos designers que partilham as suas experiências pessoais, são evidenciados muitos conselhos e comportamentos a ter em conta para erradicar estas situações e saber navegar nestes espaços de uma forma mais justa e consciente. Ideias ligadas à segurança psicológica dentro do trabalho, à transparência salarial ou às estratégias de demissão são exemplos de tópicos explorados. Numa nota final motivadora, o livro termina expondo um conjunto de advertências e dicas de diferentes designers para quem é iniciante na área, o que acaba por estimular o leitor a “meter as mãos na massa” e explorar este mundo.
Na minha perspetiva, um ponto forte do livro é o facto de ser tangivelmente inclusivo na medida em que narra as experiências verídicas de muitos designers, com as mais variadas etnias, identidades e contextos, o que enriquece a obra de uma forma genuína e pessoal. O leitor vê-se assim confrontado com situações reais, obtendo uma noção mais plausível da forma como as coisas verdadeiramente funcionam e são aplicadas no mundo profissional, libertando-se assim de uma versão meramente teórica, idealizada ou distorcida da prática do design.
Outro fator que considero muito positivo no livro é o facto de este apresentar uma linguagem bastante acessível, o que o torna mais apelativo a um público maior, ainda que não familiarizado com os termos de design. O facto de serem abordados muitos tópicos ligados à justiça social também faz dele uma leitura relevante para os que se interessam por este ângulo, mesmo que não necessariamente associado ao espectro artístico. Numa ótica mais negativa, é pertinente realçar que, apesar de os designers referidos no livro virem de diferentes backgrounds, as suas práticas e locais de trabalho concentram-se unicamente no contexto norte-americano. Para melhor fazer jus à temática da diversidade prevalente na obra, julgo que seria interessante existirem relatos de práticas de design noutros países e noutros meios, tomando assim uma posição ainda mais ampla e neutra.
Em suma, considero um livro extremamente pertinente para o discurso sobre design porque introduz nos leitores uma perspetiva muito mais abrangente e consciente sobre este mundo, procurando desmantelar preconceitos, pressupostos e narrativas erradas sobre o mesmo. É uma leitura fundamental que guia qualquer designer iniciante ou pessoa que deseje explorar esta área, através de uma abordagem consciente, crítica e imparcial sobre a mesma. Ao explorar em detalhe as origens e os fundamentos das convenções, dos sistemas e dos modelos dentro da prática do design, os autores fazem-nos ligar os pontos e compreender as razões por detrás dos padrões que consideramos convencionais ou corretos, e à custa de quem é que essas ideias se formaram e sobreviveram. Assim, trata-se de uma obra que revela o poder transformativo do design na medida em que este pode diagramar ou expor estruturas de poder.
Recensão de:
Inês Cabral
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24