
Para muitos, a ideia de um design inclusivo pode parecer uma realidade distante, tendo em conta que a formação em design sempre foi centrada em modelos e cânones ocidentais, predominantemente masculinos e brancos. No entanto, o atual contexto sociopolítico tem amplificado vozes de grupos historicamente marginalizados.
Em março de 2018, foi organizada uma exposição sobre mulheres designers no Pratt Institute, em Brooklyn, Nova Iorque pelas designers Farah Kafei e Valentina Vergara. Na altura, elas estavam a terminar o curso e sentiam-se frustradas com o facto da sua educação no Pratt se ter centrado em modelos masculinos brancos apesar de o Pratt ser uma escola étnica e racialmente diversa e de a maioria dos estudantes de design da escola serem mulheres. Na noite de abertura, foram organizados um painel de discussão, onde vários designers foram convidados a falar da sua experiência na indústria, e também sessões de Q&A, em que designers puderam partilhar as suas expectativas e preocupações enquanto mulheres, imigrantes e criativos transgéneros em início de carreira.
Inspirada por estas conversas, Ellen Lupton procurou Kafei e Vergara com a proposta de colaborarem num livro — assim surgiu Extra Bold: A Feminist, Inclusive, Anti-Racist, Nonbinary Field Guide for Graphic Designers. Este não é apenas um manual para quem quer aprender design, é uma celebração das histórias que, normalmente, ficam de fora dos livros didáticos. É uma obra que explora desde as origens das fontes até as batalhas diárias de se sentir à margem da indústria. Num conjunto de entrevistas, ensaios e projetos de dezenas de colaboradores, o livro engloba uma mistura de teoria, história e trabalho. A colaboração entre autores tornou-se a principal característica que define o livro, convidando uma variedade de vozes criativas a partilharem as suas experiências de vida e observações, num objeto que é tanto texto didático, comic book, zine, manifesto, guia de sobrevivência e livro de autoajuda.
No primeiro capítulo, “Teoria”, são introduzidos conceitos essenciais e terminologia por meio de uma série de ensaios e estudos de caso. Essa abordagem estabelece uma conexão eficaz entre o entendimento teórico e exemplos concretos de práticas e projetos. O segundo capítulo, “História”, questiona a visão limitada das narrativas mais comuns nas antologias de design, trazendo ao de cima conquistas e práticas dos que foram deixadas de lado. O terceiro e último capítulo, “Trabalho”, explora as estruturas do ambiente profissional com dicas e orientações práticas. Este é o capítulo mais pragmático, pois destaca o design como uma atividade económica real e concreta. Esta estrutura oferece ao leitor uma progressão lógica e coerente dos conceitos, explorando primeiro a teoria e os contextos históricos para, por fim, discutir a aplicação prática no dia-a-dia do designer.
Ao longo do livro são abordados temas como o feminismo, o antirracismo e a inclusão racial no design, o design inclusivo para pessoas com deficiência, o pensamento não-binário e questões de género e, ainda, a descolonização do design.
Elegendo como o exemplo o tema do feminismo, o livro apresenta-nos na secção da Teoria os conceitos fundamentais dessa corrente, explicando as suas diferentes vertentes e interpretações, desde o feminismo liberal até ao feminismo interseccional. Por exemplo, aborda a conquista do direito ao voto, mostrando que, embora essa vitória seja frequentemente celebrada como um marco universal para as mulheres, ela inicialmente beneficiou apenas mulheres brancas, enquanto mulheres negras, indígenas e de outras minorias foram excluídas. Essa perspectiva desafia a ideia de que já sabemos “tudo” sobre o feminismo. Leva-nos também a questionar as camadas não faladas dentro do movimento, revelando que há muito mais a ser explorado, especialmente em termos de inclusão e diversidade, alertando para o fato de que o movimento feminista, muitas vezes, não atinge igualmente todos os grupos. Percebemos assim que o feminismo e outros temas de justiça social são complexos, multifacetados e exigem uma reflexão contínua sobre quem realmente é incluído nas lutas por direitos e igualdade.
Em seguida, na seção da História, o livro fala-nos do feminismo na Índia na segunda parte do século XX, em que as mulheres estavam ativamente envolvidas no design de cartazes políticos, utilizando-os como veículos para alertar as pessoas dos problemas de marginalização das castas, de classe, religião, sexualidade e género, bem como para para sugerir novas formas de distribuir o poder. Apesar disto, estas mulheres nunca se tornaram designers famosas; aliás, o contributo das mulheres para a história do design gráfico na Índia está ainda por documentar. Por fim, a seção do Trabalho traz discussões aplicáveis ao cotidiano do designer, de que é exemplo o texto “Wage Gaps”, que aborda a disparidade salarial entre géneros. Explicando o porquê de existir esta diferença, menciona o facto de que as mulheres têm menos probabilidade de serem promovidas ou terem cargos mais elevados.
Apesar das suas qualidades, Extra Bold tem algumas limitações. A obra está fortemente centrada nos Estados Unidos e muitos exemplos refletem essa realidade, o que pode limitar a sua aplicabilidade para designers em contextos nacionais, culturais e sociais diferentes. Embora o livro inclua algumas perspectivas globais, elas são secundárias em relação ao conteúdo focado na experiência norte-americana. Além disso, alguns temas tornam-se repetitivos ao longo do livro. Mesmo com a organização em três seções distintas, há uma sobreposição de ideias e conceitos, o que pode cansar o leitor e reduzir o impacto de algumas discussões.
Não obstante, Extra Bold não apenas educa, mas também inspira uma nova geração de designers a desafiar o status quo. Este livro é essencial para qualquer profissional ou estudante que deseje não apenas entender o design, mas também queira contribuir para um futuro mais justo e inclusivo na área. Em suma, é um recurso indispensável que deve ser lido, discutido e aplicado por todos os que desejam fazer do design uma prática verdadeiramente inclusiva, desafiando designers a serem agentes de mudança, usando as suas aptidões para amplificar outras vozes e quebrar padrões de desigualdade.
Recensão de:
Filipa Sousa,
Giovanna Bastos
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24