
A obra Feminist Designer: On the Personal and the Political in Design, editada por Alison Place, reúne um coro de vozes diversas com o intuito de examinar a interseção entre o design e a teoria feminista. Publicado em 2023 pela MIT Press, a obra conta com a participação de 43 coautores de 16 países – designers, filósofos, cientistas políticos, cientistas sociais, académicos e ativistas – cujos testemunhos e conhecimento permeiam cada uma das suas 247 páginas.
Alison Place é designer, investigadora e professora assistente de design gráfico na University of Arkansas School of Art. Colecionou e organizou estes testemunhos, propondo-se a criar um “manual de instruções” sobre design feminista. Admite, no prefácio do livro, ter aprendido sobre o movimento feminista nas aulas de História, como uma espécie de relíquia do passado, achando, por isso, insignificante identificar-se como tal. Mudou rapidamente de opinião ao entrar em contacto com o mundo real. Porém, o verdadeiro ponto de viragem na sua narrativa terá sido uma entrevista feita pela própria a um respeitado professor da sua universidade, no âmbito da tese de mestrado, onde viu o seu trabalho e pesquisa denegridos por críticas sexistas, derivadas de um incontestado abuso de poder. Place afirma ter saído dessa experiência determinada a equipar-se melhor enquanto feminista, designer e investigadora. Anos mais tarde, propôs-se a escrever o livro que precisava naquele momento. Assim nasceu o Feminist Designer.
O livro é constituído por um prefácio, uma introdução – On the personal and the political in design –, seis capítulos, agradecimentos, bibliografia, leituras recomendadas e um índice remissivo. Cada um dos seis capítulos aborda um conceito-chave feminista – o poder, o conhecimento, o cuidado, a pluralidade, a liberação e a comunidade. Apresentam todos uma introdução, estudos de caso, ensaios e diálogos que exploram, por sua vez, o respetivo conceito através de perspetivas diversas e, por vezes, contraditórias. Cada autora – sendo que a maioria são mulheres, bem como pessoas não binárias – reflete sobre o tópico na primeira pessoa, através do seu próprio conhecimento e experiências, associando-os simultaneamente a lutas mais amplas dentro do feminismo e do design. Como o subtítulo do livro indica, o pessoal não é apenas político – o pessoal também pode ser universal. Quanto mais particulares forem as nossas histórias, maior será a probabilidade de se identificarem com elas. Quanto mais espaço tivermos para nós próprias, mais espaço criaremos para os outros. Cita Sara Ahmed que afirma, por sua vez, “to become a feminist is to stay a student” e assume Feminist Designer como um convite para questionar o design como é e para o imaginar como poderá ser.
Redundantemente, começando pelo início, o prefácio da obra revela-se, desde logo, um lugar de grande clareza e honestidade. As primeiras palavras escritas por Place, aqui, são “In the feminist spirit of transparency, this preface offers an account on how this book came to be”. Desde os primeiros instantes da leitura, somos assumidamente inseridos num contexto de partilha e de colaboração, que será na verdade a grande essência deste livro. Feminist Designer assume e prova ser uma criação feminista – e não algo que apenas fala de feminismo. A editora revela-nos todo o processo de desenvolvimento e execução do livro – desde o lançamento de uma open call para coautores, o número de propostas recebidas, o número de propostas selecionadas, até ao valor pago a cada colaborador e os financiamentos que o tornaram possível. Por fim, esclarece que grande parte das ideias exploradas neste livro não são novas e que muitas delas não lhe pertencem: “Citation is not just a feminist act but also feminist memory”. Esta transparência e multiplicidade de referências consagra a obra como exemplo prático e real dos valores que prega.
A obra encontra-se dividida e categorizada de forma inteligente, clara e eficaz. Os conteúdos e exemplos escolhidos são, na sua maioria, pertinentes e, diria mesmo, revolucionários nas suas abordagens e metodologias. Por exemplo, no capítulo relativo ao “poder”, encontramos uma conversa entre Place e a tipógrafa Aasawari Kulkarni, onde se discutem as origens de Nari – a font feminista idealizada e desenhada pela mesma. Esta argumenta que é possível identificar estereótipos de género na tipografia, tal como no mundo real. Em vez de associar fontes mais sóbrias e em bold à neutralidade/masculinidade e fontes com maior decoração e “rococó” ao feminino, devemos antes associá-las a emoções. As variantes de Nari funcionam, por isso, dentro de três categorias: “voice (weight) which moves from soft to loud; mindset (width), which moves from narrow to broad minded; and fight (contrast), which moves from assertive to aggressive”. Aqui, Kulkarni ambiciona permear as escolhas tipográficas de consciência, propósito e fluidez, uma ambição que apelida como “soft revolution.”
Em Feminist Designer, o leitor embarca na leitura esperando aprender e ler sobre o feminismo inserido na disciplina do design. Porém, acaba por ver as suas noções adquiridas de “feminismo” e de “práticas feministas” repensadas, bem como as noções à volta daquele que é considerado o “design verdadeiro”: o design reconhecido, remunerado e creditado. Esta exposição de vários tipos de design, fora do “comercial”, acaba por enriquecer o livro com um grande leque de temas, alguns aparentemente discordantes do inicialmente proposto. Porém, o cerne da questão nunca é esquecido ou negligenciado: regressa-se sempre à identificação da vertente feminista destas práticas, que se materializa, muitas vezes, na adoção de métodos de trabalho baseados no cuidado e na priorização do eu, individual e coletivo. “Feminist design is not just a thing you do; it’s how you do everything”: aqui, o feminismo acontece não só enquanto ideologia, mas enquanto maneira de fazer e de nos posicionarmos no mundo, nos campos pessoais, culturais e profissionais.
Por outro lado, embora seja reconhecida, no decorrer da obra, a posição vulnerável e não privilegiada de alguns designers, Place não deixa de, esporadicamente, os encostar contra a parede do moralismo e de exigir consciência social, política e ambiental no trabalho que fazem, acima de qualquer outra coisa. Em momentos como este, não consigo deixar de identificar uma certa contradição na narrativa que nos é oferecida: se, por um lado, nos primeiros parágrafos do livro, Place assume e reconhece o seu estatuto privilegiado, enquanto uma “white, cisgendered, able-bodied woman» com “an advanced degree and (…) a position of considerable power as a tenure-track professor at a research university and as the director of a design program”, por outro lado, parece não pensar duas vezes quando, meras páginas depois, coloca todos os profissionais do campo do design “no mesmo saco”, esperando, com uma certa assertividade, a mesma consciência e ação por parte de todos “designers need to understand the complexities of power and be held accountable for the role they play in larger social, political, economic, and environmental systems”.
Para além disso, embora elogie a grande diversidade de projetos patentes em Feminist Designer, questiono-me se não haverá alguma incoerência na relevância de uns em relação a outros. Esta discrepância foi notada, principalmente, na categoria do cuidado. Se, por um lado, encontramos uma conversa muitíssimo interessante sobre design direcionado a intergenerational maternal healing, ao virar a página encontramos o texto, relativamente simples e breve, On designing with authenticity over perfection que nos descreve uma atividade desenvolvida pela designer-autora Rebecca Tegtmeyer durante a quarentena, que consiste em bordar gráficos, representações visuais de dados e de estatísticas, em pedaços de pano. Ainda que pertinente enquanto ponto de partida para uma reflexão sobre a credibilidade conferida pelos materiais ao tipo de informação representada, será pertinente a sua presença em Feminist Designer? É criado ou imaginado através de processos colaborativos? Procura resolver algum problema? Serve, ao menos, a comunidade? Talvez não. E, nesse caso, porque razão integrará a obra? Por ser desenvolvido por uma mulher? Por ser desenvolvido por uma mulher que é, também, mãe? Não haverá aqui um desvio do propósito inicialmente definido?Feminist Designer é um trabalho recente, de 2023, que nos permite vislumbrar um futuro promissor para o design e as suas práticas: mais consciente, ético e colaborativo. É imprescindível a criação – e acima de tudo a leitura – de obras assim, que nos relembrem como estudantes permanentes no nosso próprio campo e que nos mantenham críticos, com um olhar inquisidor, empático e feminista.
Recensão de:
Sofia Silva
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24