
Claire Catterall é curadora sénior da Somerset House, uma instituição sediada em Londres dedicada à cultura contemporânea, contribuindo desde 2007 para o seu programa abrangente que engloba design, fotografia, música, moda, arte e arquitetura. Mestre em História do Design pelo Royal College of Art, Catterall começou a carreira como curadora independente nos anos 1990, tendo organizado várias exposições de destaque.
Food: Design and Culture, editado por Catterall e publicado pela Laurence King em 1999, é um livro que mergulha no mundo do Food Design, explora o emergente campo do Food Design, então pouco discutido e ainda em fase embrionária. Dividida em oito partes, a obra reúne contribuições de especialistas que analisam diferentes temas, conectando a comida a áreas do design como design de produto, industrial e gráfico. Essa abordagem constrói um novo conceito que a autora denomina Food Design. Cada capítulo apresenta uma visão única, com múltiplas vozes, ideias e experiências que criam uma obra rica e multifacetada.
Na sua introdução, Catterall traz à mesa a importância da comida; descreve quem somos, de quando somos e de onde viemos, incluindo até detalhes da sociedade atual. Como ela afirma, “…as more and more food products appear on our supermarket shelves, so the intersection of food and design becomes ever more blurred. Today, food is a mass-produced consumer commodity, and as such has as much claim to be a designed object as the Ford motor car.“O entusiasmo do início do milênio é evidente na obra, quando a comida, o seu espaço, utensílios, hábitos e até a cultura que a rodeia são, pela primeira vez, postas como prioridade do design ao invés de ser apenas uma tarefa do quotidiano. A autora especula também sobre o futuro de uma área tão recente, num mundo onde a tecnologia evolui rapidamente – como expresso na ideia de uma Tomorrow’s Kitchen, recheada de eletrodomésticos inteligentes que se adaptam às necessidades do utilizador.
O primeiro capítulo, Food as fashion, escrito pelo crítico de design Stephen Bayley, explora as tendências que influenciam a comida. Desde a origem de ingredientes específicos à forma como o espaço onde comemos é moldado pelas tendências da moda que, por sua vez, moldam o que aparece nos pratos. Tal como peças de design que ganham um destaque para depois serem postas de parte, o mesmo acontece com o kiwi, por exemplo, ou qualquer outro fruto tropical, que vão aparecendo e desaparecendo das ementas conforme a tendência do momento, replicando uma espécie de padrão cíclico que acontece na moda. Bayley afirma: “Taste is not universal. It is culturally and socially conditioned”, ou seja, a forma como o espaço influencia os hábitos alimentares das pessoas – desde o espaço geopolítico onde se encontram à cozinha ou ao restaurante onde se escolhe comer.
No segundo capítulo, a curadora de design Paola Antonelli aborda o detalhe técnico do fabrico de alimentos através de uma análise da relação entre a forma e a função das massas italianas. Antonelli constrói neste capítulo pontes entre mundo gastronómico e o mundo da arquitetura e o design, mostrando como este campo pode participar na globalização e na redefinição de uma cultura visual mundial.
O terceiro capítulo, A british feast, trata-se de um ensaio fotográfico realizado por Martin Parr, que pela sua lente retrata a relação entre os britânicos e a alimentação. As suas fotografias mostram o quotidiano alimentar deste povo, por meio da interação deles com as comidas mais populares. Este capítulo serve quase como um intervalo no texto, contribuindo para a interessante sensação de estar numa exposição.
Em Future Food, Joanna Blythman reflete sobre o futuro da dita “comida de designer” num ensaio que convoca a tecnologia, a biogenética e a ideia do projeto da comida que chega aos nossos pratos. Blythman traz uma perspectiva especulativa e entusiasta sobre o amanhã: “Like children at Christmas, food technology keeps us wondering what the next novelty will be.” Contudo, mostra o outro lado, mais pessimista, da balança, mencionando as decisões de grandes empresas focadas no dinheiro e como estas impactam o resto do mundo criando, por exemplo, frankensteins alimentares.
No quinto capítulo, o crítico de arquitetura e design Jonathan Glancey faz uma análise demolidora aos supermercados. Abertos horas sem fim, o seu clima frio e impessoal, quase hospitalar, não se importando com a sazonalidade dos produtos ou com as implicações da dita perfeição a nível moral, ecológica ou económica que promovem. Este capítulo sarcástico e cru serve de crítica à hipocrisia do frequentador ávido das grandes cadeias de supermercados, em particular dos britânicos.
No penúltimo capítulo, o arquiteto Will Alsop explora a ideia do estar-se à mesa, ou seja, a forma como o meio influencia a refeição. Alsop estabelece uma relação entre diferentes espaços — cantinas, salas de jantar, salas de banquete e até o conceito de piqueniques — e a forma como cada um proporciona uma experiência única. O tom crítico deste capítulo, à semelhança do anterior, é complementado por descrições de experiências do autor, e por perguntas como: “Is the ‘designed’ situation only ever an approximation of a series of natural phenomena?”.
Para terminar, no último capítulo, Travel notes on kitchens, Ettore Sottsass aponta o foco para a cozinha, um lugar onde encontramos a ideia de família e comunidade. A seguir, pensa na nova cozinha para uma só pessoa, onde tudo é perfeito, sem odores extra, sem a impurificação deste espaço aperfeiçoado – dos utensílios às luzes cuidadosamente escolhidas para intensificar a perfeição dos ingredientes – mas cuja perfeição é quebrada pelo domingo de churrasco, onde nada desta ”perfeição” tem lugar. Achei esta ideia peculiar e provocadora, pois mostra-nos onde podemos chegar se não dermos valor ao que realmente importa, ao que a comida significa — experiência.
Hoje temos uma noção de Food Design completamente distinta do que há vinte e cinco anos era falado; temos que pensar no futuro, na forma como tudo o que rodeia este pilar da sobrevivência humana precisa de uma atenção do design e o que podemos fazer para que esta esfera se torne mais ética e sustentável. Assim penso numa nova missão, para mim e para outros que se interessem pelo tema, para pensarmos num futuro melhor, e como podemos lá chegar, passo a passo, começando pelas nossas refeições de cada dia. À primeira o livro pode transmitir uma sensação de ser um coffee table book – talvez até o seja – devido às suas dimensões (240mm por 280mm) e formato quase quadrado, ou à sua estrutura de revista, dada a sua capa mole e o seu miolo recheado de imagens. Por um lado, esta mesma estrutura, embora interessante, pode causar um ligeiro desconforto na leitura, uma vez que o texto é constantemente interrompido por uma profusão de imagens. O livro inclui um mar de referências, tanto obras de outros autores ou citações várias, o que enriquece o conteúdo apresentado. Contudo, tem uma visão muito anglosaxónica dos temas a que se dedica, mencionando detalhes específicos desta cultura; isso torna-se ligeiramente incomodativo para quem não seja ou esteja imerso nesse mundo. Por fim, convém mencionar que a linguagem dos textos e a escolha das imagens fazem com que este seja facilmente atraente para um público amplo, incluindo pessoas não envolvidas com Food Design ou áreas parecidas.
Recensão de:
Kristin Fonseca
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24