
Health Design Thinking, da autoria de Bon Ku (médico e fundador do Health Design Lab da Thomas Jefferson University) e Ellen Lupton (designer e escritora), é um livro que aborda a relação entre o design thinking e a área da saúde. A obra serve tanto de introdução a esta ligação profissional como de guia minucioso, com o principal intuito de encorajar parcerias entre técnicos de saúde, designers, pacientes e investigadores.
Numa primeira instância, Ku e Lupton esclarecem que o livro foi escrito num processo de contribuição coletiva, através de uma listagem por secção com os devidos créditos. Com esta exposição é possível averiguar que, em praticamente todos os capítulos, há uma diversidade vasta de contribuidores: designers, engenheiros, médicos, pacientes, instituições, entre outros. Esta junção de diferentes pontos de vista, técnicas metodológicas e descrições projetuais oferecem aos leitores um aprofundamento enriquecedor, bem como uma leitura mais dinâmica e estimulante. A obra está dividida em três partes principais: Principles (Princípios), Methods (Métodos) e Case Studies (Casos de Estudo). Num segmento final, o livro é complementado com ferramentas de trabalho como laboratórios de Health Design e desenvolvimento de protótipos 3D.
Ao longo dos textos é salientada a importância da relação entre o Design e a Medicina, sendo frequentemente expressa a valorização da experimentação e do processo criativo. Os autores recorrem a entrevistas, diagramas, esquemas, observações e storytelling de modo a transmitirem a fundamentalidade de escutar e trabalhar diretamente com os pacientes e os seus cuidadores. Os casos de estudo são acompanhados de fotografias, moodboards, e desenhos esquemáticos dos projetos.
Princípios
Nesta parte introdutória do livro são explicados conceitos relacionados com o Human-Centered Design (a Empatia, o Codesign e Determinantes Sociais) e com o Creative Mindset (o Questionamento, a Visualização, a Prototipagem e o Storytelling). Em cada princípio é dada ênfase ao trabalho de pesquisa e à interação humana, sensibilizando deste modo para os desafios que os pacientes e profissionais que os auxiliam enfrentam no seu quotidiano durante os tratamentos/procedimentos clínicos. Algo a destacar na secção da Empatia é a listagem que sugere cenários médicos para os leitores refletirem sobre, numa tentativa de dar a entender algumas das complicações e desconfortos que muitos sentem. Numa outra instância, na secção do Questionamento, esta estratégia de sensibilização é de novo utilizada mas através de perguntas, que tencionam cogitar o futuro das práticas medicinais.
É relevante mencionar que a forma como os autores introduzem estes conceitos acaba por, inevitavelmente, salientar a importância, por exemplo, da noção de Empatia no desenvolvimento de projetos de Health Design. Contudo, não é esta descrição da importância de Empatia que vai impactar os leitores, apesar de ainda ter a sua relevância, mas sim a explicação de como esta pode ser introduzida através de exemplos tangíveis e das suas consequências positivas.
Métodos
A segunda parte do livro é dedicada aos métodos e técnicas que devem ser utilizados como ferramentas para a resolução de problemas de assistência médica. Numa breve introdução a este segmento, é elucidado que muitas das metodologias descritas já são utilizadas há décadas em áreas como publicidade, design de produto e empreendedorismo, enquanto que as restantes têm um foco mais específico na área da saúde. É explicado ainda que todas as técnicas funcionam de forma correlativa, que nenhuma abrange singularmente todo o processo criativo, e que podem ser aplicadas tanto em projetos a longo prazo como em exercícios imersivos.
De forma pragmática, estes métodos são clarificados passo-a-passo e com sugestões de abordagem mais acessível. Por exemplo, no método Design Workshop é apresentada uma sugestão de planeamento e dicas para facilitar conversas em grupo. Já na Entrevista, são aconselhadas determinadas expressões e perguntas para abordar de forma adequada tópicos sensíveis, ou seja, com atenção particular nos diagnósticos dos pacientes. Esta secção informa também como devemos lidar com a complexidade destas entrevistas e conduzi-las de modo oportuno, instigando a consideração dos limites de resposta do interlocutor na sua experiência médica e sensibilidade emotiva. Tal como foi mencionado anteriormente, estes métodos são utilizados noutros setores profissionais que não os do Design. Apesar da temática principal do livro circunscrever-se à área da Saúde, é de elogiar a praticidade que esta obra pode vir a oferecer num contexto fora do seu propósito inicial.
Casos de Estudo
Após a exposição dos Princípios e dos Métodos, os Casos de Estudo oferecem aos leitores exemplos de inúmeros projetos de Health Design, descritos detalhadamente no processo criativo envolvente, na concretização e na sua utilidade prática. São incluídas imagens fotográficas e conceptuais, esquemas, ilustrações e moodboards como complemento à narração aprofundada de cada caso apresentado. Um aspeto que poderia ter sido considerado para esta secção do livro era uma estrutura mais apelativa: a associação e apresentação das metodologias e princípios aplicados nos casos de estudo. Deste modo seria evitada uma saturação inevitável de exemplos práticos, que estão presentes até quase à conclusão do livro.
Os projetos selecionados são bastante distintos, mesmo que alguns tenham fatores em comum como, por exemplo, serem destinados à mesma especialidade médica. Contudo, a sua leitura numa época “pós-pandémica” desperta uma curiosidade constante na descoberta de algum caso de estudo relacionado com a Covid-19. Visto que o lançamento do livro realizou-se no começo de 2020, seria cronologicamente impossível os autores acrescentarem projetos influenciados pela pandemia. No entanto, esta deceção é contornada pela qualidade e diversidade dos exemplos incluídos. E entre eles, destacam-se o iBreastExam (dispositivo autónomo para a deteção precoce do cancro da mama), Demand for Chlorhexidine (um toolkit que oferece cuidados a recém-nascidos através deste antisséptico, com intuito de reduzir a mortalidade neonatal em países subdesenvolvidos) e Sensory Arts Garden (um espaço terapêutico ao ar-livre desenhado e pensado para indivíduos no espectro autista).
Recursos e “Learn More”
Numa instância final, o livro apresenta, em adendo, algumas noções auxiliares aos conhecimentos anteriormente expostos. É descrito, por exemplo, como se pode construir um Health Design Lab, como utilizar a impressão 3D como ferramenta de prototipagem e, para os mais interessados, como prosseguir estudos e uma eventual carreira na área do Health Design. Para além disto, é apresentada ainda uma lista de laboratórios e estúdios onde o trabalho desenvolvido se relaciona com este ramo profissional.
Em suma, será inconcebível afirmar, após a leitura de Health Design Thinking, que o design não desempenha um papel fundamental na área da saúde. A sensibilização e instrução que o livro oferece são complementadas pelo seu caráter expositivo, tanto de exemplos tangíveis como de metodologias de projeto, pelo que não seria desapropriada a recomendação da obra a profissionais de áreas dissemelhantes. Trabalhar em prol de outras pessoas requer um contacto particular com o próximo mas também para connosco — com a nossa sensibilidade humana. É indubitável que o livro nos incentiva a despertar o nosso lado mais compassivo e empático. Neste sentido, Health Design Thinking aborda muito mais para além da interdisciplinaridade entre o design e a saúde.
Recensão de:
Inês Roque
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24