
Müller, Lars
Josef Müller-Brockmann: Pioneer of Swiss Graphic Design
1995 Zurich
Lars Müller Publishers
A obra Josef Müller-Brockmann: Pioneer of Swiss Graphic Design, escrita por Lars Müller e publicada por Lars Müller Publishers em 1995, oferece uma visão profunda e enriquecedora sobre a vida e a carreira de um dos maiores nomes do design gráfico do século XX, Josef Müller-Brockmann. Com uma abordagem que vai além da simples biografia, o livro de Lars Müller apresenta uma análise crítica da evolução do design gráfico suíço e do impacto global de Müller-Brockmann, destacando o seu papel fundamental na formação do que hoje é conhecido como “design suíço”. Este movimento gráfico, com a sua estética objetiva, funcional e racional, teve uma influência duradoura, e a figura de MB, forma pela qual Lars Müller o trata na obra, é central nesse processo.
Lars Müller traça o perfil de um designer que surgiu no início dos anos 1950, com quase 40 anos, após uma carreira inicial marcada pela ilustração. Esta transição radical de uma visão subjetiva para uma abordagem mais objetiva e construtiva não foi apenas uma mudança pessoal. Foi também um reflexo das transformações que o design gráfico estava a passar na Suíça, especialmente a partir da década de 1930. É importante referir que esta mudança se insere num contexto mais amplo de contradições políticas e sociais, onde o conservadorismo e os valores tradicionais se opunham a uma nova visão modernista, impulsionada por figuras como Max Bill, Anton Stankowski e Hans Neuburg.
A formação de Josef Müller-Brockmann na Escola de Artes e Ofícios de Zurique, entre 1932 e 1934, é um ponto central na sua trajetória, pois esteve sob a influência de Ernst Keller e Alfred Willimann. Keller, defensor do tradicionalismo nas artes e ofícios, e Willimann, influenciado pela Bauhaus, representaram duas correntes distintas dentro do panorama artístico suíço e europeu da época. Müller-Brockmann, incapaz de escolher entre essas duas abordagens, iniciou a carreira como ilustrador, algo que o autor destaca como uma fase que, embora importante, não foi determinante na sua trajetória futura como designer gráfico.
Na década de 1930, marcada por intensas tensões políticas e sociais devido à crise económica e à ascensão do fascismo, a Suíça vivia um período de grande contradição. Um período onde o conservadorismo prevalecia, e onde surgia um movimento modernista. Foi nesse tempo que as sementes do design gráfico construtivo começaram a ser plantadas. O movimento “Neues Bauen”, defendido por arquitetos e artistas, como Max Bill, Anton Stankowski e Hans Neuburg, e a formação de grupos como o “Zürcher Konkrete” foram fundamentais para a consolidação de uma nova estética que se afastava do ornamentado e se dirigia a um design mais funcional e interdisciplinar.
Müller-Brockmann entra no mundo do design gráfico construtivo de forma definitiva nos anos 50, período onde a sua carreira ganha uma grande notoriedade. A transição de um estilo ilustrativo, com fortes influências do surrealismo e humor, para uma abordagem mais racional e funcional, é um dos pontos-chave da obra. Müller descreve como, em 1950, Müller-Brockmann começou a aplicar os princípios de organização funcional e os arranjos assimétricos em cartazes, uma ruptura com os designs mais ornamentais e ilustrativos que predominavam até então.
O estudo da obra de Müller-Brockmann é enriquecido com a análise de alguns dos seus primeiros projetos de destaque e inovadores, como os cartazes para a Tonhalle de Zurique, que marcaram o início de sua aproximação com o design gráfico construtivo. As escolhas tipográficas, como a transição da tipografia grotesca semibold para a Akzidenz-Grotesk, são exploradas pelo autor como elementos de uma mudança estilística e conceitual que refletiam os novos tempos do design gráfico suíço. Essas inovações, embora inicialmente criticadas, rapidamente solidificaram a reputação de Müller-Brockmann como um dos grandes nomes do design gráfico moderno, e o autor faz questão de destacar como os seus cartazes para eventos como os da Tonhalle foram fundamentais para a transformação do design gráfico oficial na Suíça.
O designer foi capaz de aplicar a sua filosofia de design para transmitir mensagens claras e objetivas, especialmente perante temas sérios, como as campanhas da polícia metropolitana de Zurique. Consolidou um estilo que prezava pela clareza, pelo impacto visual e pela funcionalidade, afastando-se da ornamentação e buscando sempre uma forma gráfica que fosse diretamente ligada ao conteúdo que deveria ser comunicado. Essa clareza visual e tipográfica foi uma das grandes inovações de Müller-Brockmann, marcando uma mudança em relação aos designs mais subjetivos e ilustrativos do passado.
O livro também explora a sua filosofia de design, que foi decisiva para o desenvolvimento do design gráfico suíço. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, que adotaram o design construtivo de maneira gradual, Müller-Brockmann fê-lo de forma rigorosa e intelectual, fundamentando as suas escolhas em princípios estéticos e funcionais claros. A busca incessante pela objetividade e pela clareza, sem deixar de lado a inovação, fez dele um dos principais defensores do que viria a ser o “design suíço”, um estilo que, com o tempo, se tornaria um modelo de excelência em design gráfico.
Lars Müller destaca que a filosofia de Müller-Brockmann estava intimamente ligada à ideia de que o design gráfico deveria ser capaz de informar sem manipular, respeitando a integridade da comunicação. O mesmo enfatiza a postura ética de Müller-Brockmann, especialmente no que diz respeito ao seu rompimento com a Turmac, uma empresa ligada à indústria do tabaco, após tomar conhecimento dos efeitos prejudiciais do mesmo. A sua decisão de impor critérios rigorosos de ética na sua prática profissional, excluindo qualquer projeto que fosse contrário aos seus princípios, é apresentada como um exemplo de sua integridade e compromisso com a responsabilidade social no design.
Além disso, a obra também nos dá uma visão de como Müller-Brockmann via a relação entre arte e função. Acreditava que o design gráfico deveria ser uma expressão de clareza, precisão e simplicidade, com o objetivo de facilitar a comunicação e não ofuscar a mensagem. A crítica ao excesso de ornamentação e ao uso de imagens que não contribuem para a compreensão da mensagem é uma constante no seu trabalho e reflete a sua visão de um design mais racional e funcional.
Müller-Brockmann alcançou então um reconhecimento global. A sua experiência no Japão, o estudo da filosofia zen e a sua leccionação no Instituto de Design de Ulm nos anos 1960 foram fundamentais para consolidar a sua reputação internacional. A exposição das suas ideias e projetos em conferências como a de Aspen, nos Estados Unidos, foi um marco para a difusão do design suíço e das suas ideias sobre o design gráfico construtivo. Especialmente após ser nomeado diretor do departamento de design gráfico da Escola de Artes e Ofícios de Zurique, Müller-Brockmann teve um impacto muito importante como educador, ao reformular o currículo da escola, o que influenciou diretamente a formação de uma nova geração de designers.
A sua contribuição para o desenvolvimento do design gráfico como uma disciplina intelectual e estética reflete-se no legado educacional que ele deixou, e o autor do livro faz questão de destacar o trabalho de Müller-Brockmann em promover uma abordagem sistemática e objetiva do design. A sua influência em jovens designers, como Richard Paul Lohse e Carlo Vivarelli, que fundaram a revista New Graphic Design em 1958, é uma das muitas formas pelas quais o trabalho de Müller-Brockmann continuou a influenciar a evolução do design gráfico na segunda metade do século XX.
Posto isto, Josef Müller-Brockmann: Pioneer of Swiss Graphic Design é uma obra de fácil leitura que contém bastantes referências visuais das obras de Müller-Brockmann, e indispensável para a compreensão da evolução do design gráfico. Lars Müller oferece-nos uma visão completa e crítica de um dos maiores nomes do design gráfico do século XX, refletindo sobre a importância de sua obra no contexto mais amplo do design gráfico. Embora aborde sobre a importância da funcionalidade na comunicação visual, este livro vai além das suas criações visuais, defendendo sempre um design gráfico ético, cuja filosofia continua a ser relevante nos dias de hoje.
Um dos grandes méritos do livro é a forma como Lars Müller consegue situar a trajetória de Josef Müller-Brockmann num contexto mais amplo, explorando não apenas a contribuição do mesmo para o design, mas também a sua postura ética e os princípios que defendia. A análise de obras como os cartazes para a Tonhalle de Zurique, acompanhada de referências visuais detalhadas, proporciona uma experiência rica e imersiva ao leitor, acompanhado de uma abordagem clara e didática torna a obra acessível tanto para especialistas quanto para iniciantes no campo do design gráfico, consolidando-a como um recurso valioso para compreender as raízes e os desdobramentos do estilo suíço.
Contudo, a obra poderia aprofundar mais as tensões e os possíveis limites da abordagem funcionalista defendida por Müller-Brockmann. Apesar de o autor exaltar a clareza e a objetividade do design suíço, faltam discussões mais elaboradas sobre como essa abordagem pode ser desafiada num cenário contemporâneo, em que o design se torna cada vez mais híbrido e subjetivo. Além disso, uma análise crítica das implicações da universalidade proposta por Müller-Brockmann teria enriquecido o debate, especialmente no que respeita à diversidade cultural e estética no design global.
Recensão de:
Madalena Pereira
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24