Lair: Radical Homes and Hideouts of Movie Villains

Oppenheim, Chad & Gollin, Andrea

Lair: Radical Homes and Hideouts of Movie Villains

2019 Miami
Tra Publishing

Lair: Radical Homes and Hideouts of Movie Villains, de Chad Oppenheim e Andrea Gollin, vai além de uma simples análise dos esconderijos icônicos dos vilões do cinema. A obra explora como os elementos de design, como formas, cores, texturas e materiais, são ferramentas usadas para influenciar emoções e criar narrativas visuais. O livro investiga como essas características arquitetônicas não apenas definem o espaço, mas também intensificam a psicologia dos vilões, promovendo um entendimento mais profundo de suas personalidades e motivações.

O livro, para além de sua minuciosa análise aos esconderijos de super vilões, traz também aspectos muito interessantes em seu formato e fisicalidade. Tal como a maioria das arquiteturas representadas aqui, o livro em si apresenta um aspecto quase megalomaníaco se encaixando na categoria de coffee table books, tendo massivos 23 por 33 centímetros de tamanho, apesar de ter apenas 290 páginas o livro mede 4.5cm de largura graças a gramatura altíssima de suas folhas, nas quais são apresentadas algumas fotos e diagramas em duplas páginas, realçando a magnitude das construções representadas. Para além disso o livro utiliza de uma abordagem monocromática sendo majoritariamente preto e tendo seus textos e imagens em um cinzento metálico brilhoso, talvez fazendo alusão ao senso comum de que os vilões são quase sempre personagens ricos que desdenham daqueles que julgam inferiores.

Desde as bases submarinas até os castelos isolados no topo de montanhas, as formas dos esconderijos dos vilões no cinema refletem suas personalidades e traços psicológicos. Oppenheim e Gollin explicam como essas formas influenciam as emoções dos espectadores. Linhas angulares e simétricas, por exemplo, transmitem força e domínio, enquanto curvas e formas geométricas inusitadas podem evocar mistério e tensão. O brutalismo, com sua aparência sólida e opressiva, é amplamente utilizado em esconderijos de vilões, como no quartel-general do vilão Silva em Skyfall. Essa escolha não é por acaso: as estruturas brutais e massivas intimidam, provocam medo e indicam força e indestrutibilidade.

O livro argumenta que formas geométricas rígidas e volumosas — frequentes nos refúgios de vilões — não só evocam poder e austeridade, mas também criam uma barreira psicológica entre o vilão e o mundo exterior. A sensação de isolamento e invulnerabilidade é reforçada por essa escolha de design, algo que reverbera na mente do espectador, que rapidamente percebe que esses ambientes representam uma fortaleza impenetrável, um espaço de domínio absoluto do vilão.

As cores desempenham um papel fundamental na construção das emoções e da atmosfera. Oppenheim e Gollin abordam como vilões são frequentemente associados a paletas de cores sombrias, como preto, cinza, e tons metálicos, para provocar um senso de perigo, frieza e distanciamento. A casa de Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes, por exemplo, usa tons escuros e terrosos para reforçar a ameaça e a complexidade psicológica do personagem. Por um lado, esses tons não apenas destacam a crueldade ou a seriedade do vilão, mas criam uma experiência emocional para o público, transmitindo uma sensação de desconforto ou até mesmo de terror.

Por outro lado, o uso ocasional de cores vibrantes, como o vermelho, comunica alerta e violência, insinuando o perigo iminente e a presença de uma ameaça. Os vilões que habitam ambientes onde o vermelho predomina — seja em móveis, paredes ou iluminação — transmitem uma sensação de intensidade e agressão, fazendo com que o espectador associe aquele espaço a uma constante tensão e ao risco. Essa escolha cromática é proposital, pois o vermelho ativa reações emocionais imediatas, como a aceleração dos batimentos cardíacos e o aumento da adrenalina.

Os autores também exploram como texturas e materiais dos ambientes dos vilões contribuem para intensificar as emoções e reforçar a percepção de ameaça ou desconforto. Materiais frios e industriais, como aço, vidro e concreto, são comuns em bases de vilões modernos, como a de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita. Esses materiais transmitem a ideia de uma tecnologia fria e impiedosa, enquanto a ausência de elementos mais naturais ou aconchegantes sugere um distanciamento emocional. Essa escolha reflete uma visão de mundo calculista e intransigente, associada ao poder absoluto e à indiferença pelos valores humanos.

Texturas como paredes ásperas, superfícies metálicas brilhantes e pisos polidos contribuem para uma experiência sensorial de frieza e rigidez, que é sentida de maneira inconsciente pelo espectador. Em Lair, cada escolha de material e textura reforça uma conexão emocional: o concreto bruto sugere força brutal e intransigência, enquanto o vidro espelhado evoca distanciamento e controle, características típicas de personagens vilanescos. Em termos de design, esses elementos sensoriais são parte essencial para intensificar a experiência psicológica do público, elevando a ameaça implícita do ambiente.

A escolha do espaço vazio e a vastidão dos esconderijos também são temas recorrentes no livro. Em muitos casos, o tamanho exagerado dos ambientes, com corredores extensos e salas amplas, cria uma sensação de solidão e frieza. Esses espaços quase vazios enfatizam o isolamento emocional dos vilões e sublinham sua desconexão com a sociedade. O livro sugere que esses ambientes extensos e desprovidos de acolhimento atuam como metáforas para a frieza emocional e a solidão dos antagonistas.

Essa manipulação do espaço e do vazio provoca uma sensação de desconforto, enquanto a vastidão desses cenários simboliza o desejo de controle absoluto dos vilões. Em esconderijos como a base de Blofeld em 007 Contra Spectre, a amplitude do espaço reforça o domínio total que ele possui sobre o ambiente e o mundo ao seu redor, assim como sua frieza e indiferença em relação ao que o cerca. Para o espectador, essa utilização do espaço torna-se uma experiência emocional intensa, que traduz o isolamento e a alienação do vilão.

Lair oferece uma perspectiva intrigante sobre como os elementos visuais influenciam a narrativa e como o design pode manipular as emoções dos espectadores. O livro conecta esses aspectos visuais à psicologia, explorando como a arquitetura dos vilões cria ambientes que se tornam extensões de suas personalidades. Ao detalhar esses elementos de design, Oppenheim e Gollin mostram como cores, texturas, formas e espaços amplos são usados para provocar emoções específicas e intensificar a relação do espectador com o personagem.

Essa visão sobre a psicologia do espaço se estende para além do cinema, sugerindo que todos os ambientes projetados afetam, de algum modo, as emoções das pessoas. Ambientes mais escuros ou minimalistas, por exemplo, transmitem calma e sobriedade, mas também podem gerar desconforto e introspecção. Já espaços vibrantes e coloridos promovem uma sensação de dinamismo e bem-estar. No caso dos vilões do cinema, Lair destaca que o design é uma ferramenta ativa para influenciar a percepção do espectador, fazendo com que ele sinta o poder ou a ameaça sem que seja necessário verbalizar essas características.

Lair: Radical Homes and Hideouts of Movie Villains é uma obra inovadora que combina análise de design, psicologia e narrativa cinematográfica, proporcionando uma visão detalhada sobre como o espaço, as cores e as formas dos esconderijos dos vilões moldam a experiência emocional do espectador. Chad Oppenheim e Andrea Gollin nos convidam a enxergar além da superfície estética, mostrando como o design dos ambientes age como um personagem oculto, capaz de intensificar as emoções e revelar facetas profundas dos vilões.

Para os leitores, o livro oferece mais do que uma análise cinematográfica; é uma reflexão sobre o papel do design em influenciar emoções e moldar experiências. Ao final, Lair deixa claro que o design é uma linguagem poderosa, com capacidade de transformar qualquer ambiente em um espaço que comunica intenções, emoções e uma narrativa única. É uma obra indispensável para quem deseja entender como as escolhas de design afetam a nossa percepção, no cinema e na vida real.

Recensão de:
Eduardo Silva

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

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