
Melancolia e Arquitetura. Dois temas que se cruzam organicamente, e com uma contextualização histórica deslumbrante, no trabalho do arquitecto e escritor David Seixas Lopes (1972-2016). Neste livro, que foi também a tese de Doutoramento do autor na faculdade ETH Zurique, permite que o encontro entre o significado de Melancolia e a obra do arquiteto italiano Aldo Rossi (1931-1997) se realize, e que o resultado da sua obra seja visto e extensivo a um público interessado nas áreas da arquitectura, do design, da filosofia e das artes – de modo geral. A coerência do texto e a escrita acessível, a utilização de imagens que contextualizam o seguimento da narrativa e a utilização de referências textuais diversas — são feitas indicações a livros que não têm, necessariamente, uma ligação directa com a arquitetura — enriquecem a temática, e compreendem em si a fluidez de escrita necessária para uma compreensão que se vai desenrolando com facilidade ao longo de todo o livro.
O livro é dividido em cinco partes: uma Introdução, a qual retrata de forma bastante sucinta (num total de 10 páginas) a génese da temática do livro, Melancolia e Aldo Rossi. São explanados os confrontos do mesmo com a sua profissão e com as problemáticas políticas e sociais da sua altura. Segue-se a esta uma primeira parte, intitulada Melancolia e Arquitetura. Aqui, Seixas Lopes começa por contextualizar de que modo a melancolia era inicialmente vista como uma anomalia clínica, tendo origem na infecção da bílis negra e na propagação do líquido da mesma pelo restante corpo, acabando por afetar o funcionamento dos órgãos e assim, o estar espiritual e físico do paciente. Ao longo dos tempos, é assim descrito, a melancolia foi sendo cada vez mais associada a um estado de espírito do que uma doença ou dor física, havendo uma inversão dos papéis na relação causal — físico > espírito para espírito > físico. Assim, as artes tiveram um papel importantíssimo na forma de representação desse mesmo estado. São dados exemplos como as gravuras de Albrecht Dürer, Melancolia I, de 1514. A mesma representa um homem, ideal da época Renascentista, de olhar vago e distante, rodeado de objectos que desde sempre carregaram com eles um significado simbólico de poder – o compasso, o martelo, a plaina, a régua, a coroa de agriões, o morcego, o arco íris, o cometa – e num ambiente melancólico de ruína: “a sua Melancolia não é nem um avaro, nem um caso mental, mas um problema que não pode ser resolvido”. Aqui, Diogo Seixas Lopes contextualiza também a representação da ruína enquanto metáfora de um espírito decadente, mas que se deixa revelar pelas estruturas destroçadas que permanecem enquanto imagem de algo que já passou, mas que não quer ser esquecido.
Este será um ponto assente ao longo do livro e em torno do qual Aldo Rossi trabalhará sobre a relação biografia > obra e personalidade > conteúdo. Ambas as relações serão mote assente nos trabalhos do autor. Na segunda parte, o autor foca-se no caso de Aldo Rossi, sendo exatamente esse o nome do capítulo. Começa por relatar o início do seu percurso académico em torno da arquitetura e como a mesma sempre fora uma extensão do modo de pensar do arquitecto. Aldo Rossi espelhava-se na construção, no pensamento crítico, na poética, no olhar em volta, na paisagem e nos elementos que a compunham. Dava importância às formas, aos desenhos, ao material, às sombras, ao ser que habitava a construção antes da sua projecção terrena — o seu fantasma. Aos espaços vazios, à memória. Lopes afirma: “Para Rossi, a arquitectura tornou-se uma recordação de coisas essenciais que se fundiam em formas e ideais.” A arquitetura, para Aldo Rossi, era a humanização dos materiais.
Na terceira e última parte do livro, existe um único foco, o Cemitério de San Cataldo, e todo o seu processo de projecto, desde a criação enquanto ideia passando pela fase concursal, até à sua conclusão e recepção. A construção, como inicia o capítulo, foi um grande ponto de viragem na sua obra. Marcou o apogeu de Rossi e também a materialização de todo o seu pensamento e processo de trabalho. A mesma pode ser assim vista como a extensão mais pura e o auge do ideal na relação biografia > obra e personalidade > conteúdo, faladas acima. Refletindo uma imagem surrealista, irreal, de um espaço quase heterotópico, Rossi fora capaz de criar uma relação directa entre a arquitectura e a pintura, assemelhando-se aos espaços representados por Giorgio de Chirico e entre a arquitectura e o design, desmistificando e tornando visível as dificuldades que a sedimentação do conhecimento visual causa na assemelhação dos espaços às suas funções. Assim, a obra do arquiteto não será somente a de planeamento prático, mas a do pensamento, do acto, da introspecção. O arquiteto não desenha apenas em torno da função para servir a realidade, mas de que forma a realidade, a alienação, o vazio, a subjectivação, podem ser traduzidos na arquitetura do próprio espaço. A melancolia era então apresentada como síntese e interpretação de um edifício que se erguia de forma puramente fria, aplicando-se, principalmente, às últimas fases da obra de Rossi. É deste modo que Diogo Seixas Lopes encerra a sua tese.
Do ponto de vista da leitura do livro e da sua aplicabilidade na área do Design, não poderemos dizer que a ligação se realize de forma direta ou explícita com a disciplina. A relação entre a própria arquitetura e o design realiza-se de forma intrínseca, pelos meandros da sua didática e execução, pela linguagem, temáticas e preocupações comuns. Assim, Melancolia e Arquitetura torna-se um livro de reflexão para o Design e demonstra, através do caso de Aldo Rossi, a importância do vínculo e da plasticidade da relação entre personalidade e obra, autor e produto final. É bonito e importante considerarmos o modo como Rossi se manteve longe dos grandes holofotes. Nunca houve a necessidade de vestir a imagem de ser visto, da indústria, da grande produção, dos últimos meios, do brilho, do estrelato. Rossi pensava à beira do silêncio e da introspecção e as suas obras, se estivermos atentos, revelam explicitamente todo o seu processo.
O Design, ao longo da sua história, tem vindo a aproximar-se cada vez mais do abismo do consumidor que em si nada carrega de crítico. Ao fazer industrial e ao consumo em massa. Às grandes torres e grandes brasões. Sem significado e cura. O designer enquanto ser, enquanto indivíduo que o representa, sente-se abafado por todo esse mundo que Rossi procurava se refugiar. É nesse aspecto que este livro deverá ser lido. E é com o olhar autêntico de individualidade que o Designer o deverá abraçar.
Recensão de:
Isabela Abate
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24