
Ruined by Design de Mike Monteiro é uma exploração perspicaz das implicações éticas no design contemporâneo. Indiscutivelmente, reconhecemos a presença do mundo digital no cotidiano moderno mas os alicerces que suportam a world wide web estão corroídos pela ferrugem da desinformação, pelo racismo, xenofobia e exploração laboral, e enraizados nas aplicações onde o bullying e os comentários desumanos são recebidos como conteúdo – tornando-se geradores de lucro. Monteiro reflete no impacto que o designer tem para destruir ou multiplicar estes padrões antiéticos.
Numa contínua antítese, o autor reflete sobre a insignificância do papel do designer como indivíduo, e no impacto da profissão no mundo moderno, tal como as repercussões das suas experiências e erros no universo virtual. Ao desmistificar e humanizar o trabalho dos designers – “the world isn’t usually changed by special people. It’s changed by ordinary people who take it upon themselves to take a stand because they’re trying to lead ordinary lives and something stupid gets in their way.” – Monteiro oferece-nos uma nova perspectiva da profissão, tal como uma proposta de legislação do que um designer pode, ou não fazer.
Ao referenciar o juramento de Hipócrates, o autor estabelece uma ponte entre a medicina e o design, propondo uma reflexão inerente ao impacto do design na vida humana. Ao exigir da profissão uma seriedade e responsabilidade que vai para lá da beleza estética – “we need to fear the consequences of our work more than we love the cleverness of our ideas” – abraça o design com a função de servir o utilizador. Deste modo, o trabalho do designer não é servir o cliente, mas sim difundir o seu propósito. O designer não é uma ferramenta, tem opiniões e julgamento próprio que deve confidenciar nas propostas que lhe são entregues. O design é assim um ofício que deve ser honrado e não menosprezado pelo próprio.
No cerne da obra está o código ético desenvolvido pelo autor, que se apresenta como um guia imperativo para os profissionais do design. Este código delineia princípios fundamentais, como empatia e inclusão, instando os designers a contemplarem as consequências éticas em cada tomada de decisão. Numa linguagem informal, trocista e extremamente acusadora, o autor pretende explorar, até ao osso, o desconforto do leitor perante as barreiras éticas de um trabalho em design. O autor desmistifica ações eticamente difusas (porém normalizadas em projectos), como a utilização de linguagem manipuladora, softwares aditivos, o proveito abusivo de dados, targeted advertising, a acessibilidade da perseguição online (stalking) e o entendimento prejudicialmente abrangente do termo “liberdade de expressão”: “If we cannot ask ‘why’, we lose the ability to judge whether the work we’re doing is ethical. If we cannot say ‘no’, we lose the ability to stand and fight. We lose the ability to help shape the thing we’re responsible for.”
Para uma publicação relativamente atual (2019), recebemos Ruined by Design com um véu de desatualização que advém, provavelmente, da constante mudança característica da internet. Como o autor indica, “we are moving fast and breaking things…” . Não esperamos que Monteiro seja um visionário; aliás, deveríamos congratulá-lo pelo pensamento avançado da urgência por mudança. Porém, a cada comentário, estratégia ou caso prático que o autor propõe, é tragicamente cómico os temas que a publicação parece evitar, mas que na realidade ao tempo da publicação ainda não tinham surgido: Elon Musk, a criação do metaverso, a guerra da Ucrânia. Em contrapartida, a leitura desperta a curiosidade sobre qual seria a opinião de Monteiro sobre estes temas.
Ao longo da obra, Monteiro apresenta um profundo desapontamento com as instituições académicas, criticando a sua ingenuidade e consequente falta de conhecimento burocrático dos designers emergentes. A sua perspectiva é de tal modo prejudicial que elogia designers que não vieram originalmente deste campo de formação. A meu ver, estas críticas pareceram-me justificadas mas um pouco desnecessárias, uma vez que não são acompanhadas de soluções regenerativas. Em resposta às acusações aos métodos de educação, Monteiro reforça a implementação do código de ética mencionado anteriormente; todavia, a sua abordagem caracteristicamente agressiva e trocista parece identificar os estudantes da área de design com “casos perdidos”, condenados a uma educação imprópria, demonstrando não ter qualquer forma de compreensão ou resposta aos dilemas dos novos designers.
Assim recebemos as palavras de Monteiro com uma certa incerteza: se por um lado a sua personalidade impulsiva e agressiva transpira pelo seu vocabulário, por outro lado os seus ideais, e a sua urgência de escapar deste campo minado que é o mundo do design, parece-nos pouco persuasivos e convincentes. O autor não evita tópicos “tabu” – visibilidade, inclusividade, entrada no campo profissional – mostrando compreender o seu cariz fundamental e reconhecer tanto os seus privilégios como o infortúnio de outros. Reconhece ainda tanto os ideais como os estereótipos que teve outrora e como evoluiu no seu pensamento, evolução essa refletida na afirmação: “The world isn’t broken. It’s working exactly as it was designed to work.”
Em conclusão, Ruined by Design oferece uma perspectiva incisiva sobre as implicações éticas no design contemporâneo, e desafia os designers a refletirem sobre o impacto de suas escolhas no mundo digital. Mike Monteiro propõe um código ético imperativo, instando os profissionais a considerarem a empatia e inclusão em cada decisão. No entanto, a possível desatualização do livro face à constante evolução do cenário digital, e a abordagem impulsiva do autor, levantam questões sobre a aplicabilidade prática de suas propostas. A crítica às instituições académicas, embora fundamentada, carece de soluções ou propostas concretas. Em última análise, Monteiro destaca temas cruciais mas a sua abordagem assertiva pode gerar ambiguidades na aceitação de suas ideias e sugestões, ficando aquém de uma reflexão mais profunda sobre a complexidade do universo do design e das suas implicações éticas.
Recensão de:
Maria Ana Saldanha
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24