
A criatividade é frequentemente vista como um dom nato, reservado a um número restrito de pessoas, geralmente associadas ao universo das artes, como artistas, pintores, músicos ou escritores. Talvez tenha sido por isso que recebi este livro como presente de Natal, pois, apesar de estar no campo do design de comunicação e não num curso artístico propriamente dito, a verdade é que a maioria das pessoas ainda encara a criatividade como um atributo intimamente ligado à arte e ao artista, fazendo uma conexão tão forte que raramente se questiona sobre o que realmente significa ser-se criativo. Aliás, muitas profissões que exigem inovação e constante resolução de problemas complexos – como a ciência, a tecnologia ou a gestão – são muitas vezes áreas onde esse atributo é tão ou até mais essencial, podendo ser cultivado, refinado e aplicado por qualquer pessoa.
No livro The Creative Act: A Way of Being, Rick Rubin, um dos produtores musicais mais influentes de todos os tempos, apresenta uma panóplia de reflexões profundas sobre a criatividade e o processo criativo. Longe de pretender ser um manual para alcançar a criatividade, a obra assume-se mais como um guia para estimular a reflexão e a meditação sobre o tema. Este ponto torna-se claro logo na introdução de Rubin, onde ele afirma: “Some ideias may resonate, others may not. (…) Use what’s helpful. Let go of the rest.” Com esta orientação, o autor incentiva o leitor a selecionar as passagens mais significativas para si, oferecendo uma seção no final do livro com páginas em branco para anotações e reflexões pessoais.
O livro apresenta 141 páginas e está dividido em 78 curtos capítulos, compostos por apenas duas ou três páginas, contendo reflexões sobre o tópico da criatividade ou do processo criativo. Os capítulos, porém, seguem uma estrutura não linear e carecem de uma narrativa coesa, isto porque apesar da obra abordar sempre o mesmo tema – a criatividade – a constante mudança de assunto e a falta de uma linha de pensamento clara geram uma sensação de desconexão, como se estivéssemos apenas a acompanhar pensamentos soltos do autor. Não há esforço para manter o leitor interessado nem para construir um ponto de vista sólido: o autor simplesmente apresenta uma ideia, e, duas páginas depois, já estamos numa nova reflexão, sem continuidade aparente. Assim, uma leitura mais pausada – lendo um ou dois capítulos por dia – pode ser mais eficaz, permitindo que cada reflexão seja absorvida de forma isolada e pessoal.
No núcleo de capítulos do livro o autor descreve como o seu processo criativo está dividido em quatro fases distintas: “Seeding”, “Experimentation”, “Crafting” e “Completion”.
Na “Seed phase”, Rubin introduz o conceito de que todos temos “antenas” receptoras de estímulos e reflete sobre a importância de nos mantermos sensíveis e de espírito aberto para captar inspirações, ou “seeds”, que servirão como pontos de partida para qualquer projeto, afirmando “As the seeds arrive, forming conclusions about their value or fate can get in the way of their natural potential”. Isto porque, ao fazermos suposições prematuras sobre como as ideias funcionariam, podemos estar a limitar o nosso crescimento criativo e nesta fase devemos apenas recolher as seeds.
Na “Experimentation phase”, o processo passa de recolher ideias para explorar as direções que essas ideias podem tomar: “Allow the seed to follow its own path toward the sun. The time to discriminate will come later”. Rubin incentiva o leitor a explorar todas as ideias sem julgamentos antecipados, mesmo que algumas pareçam pouco promissoras no início, destacando a importância de usar o entusiasmo como um barómetro para orientarmos o caminho a seguir: “Excitement tends to be the best barometer for selecting which seeds to focus on” . Isto porque a cada tentativa falhada, poderemos estar mais próximos de encontrar uma solução que funcione.
A “Crafting phase” requer uma transição da experimentação ampla para um desenvolvimento mais focado, consistindo em trabalhar e refinar ideias de modo a infundir a personalidade e gostos pessoais no projeto, a dar-lhe uma voz. Rubin compara esta fase de desenvolvimento à subida de uma “winding staircase a hundred stories tall. A long, precarious climb lies ahead.”
Sublinhando a importância de manter o momentum e afirmando que “Crafting contains a paradox” e que “To create our best work, we are patient and avoid rushing the process, while at the same time we work quickly without delay”, o autor defende que a arte é um reflexo do criador durante um determinado período: estender esse tempo pode dificultar a obtenção de uma representação verdadeira da visão do artista e levar à perda de entusiasmo ou ao abandono do projeto.
A fase final é chamada de “Completion phase”. Citando Rubin, “in the Completion phase, we leave behind discovery and building. With a beautiful volume of material crafted before us, the final form is refined to be released into the world.” Após o lançamento do projeto, a interpretação do público torna-se algo que foge ao controle do criador, o que segundo Rubin pode gerar uma sensação de libertação. Como ele afirma: “Our life’s work is far greater than any individual container. The works we do are at most chapters. There will always be a new chapter, and another after that.” Este conceito de “Letting go” reflete a filosofia criativa de Rubin, em que a conclusão de um projeto abre caminho para o próximo, criando um ciclo contínuo de evolução e crescimento criativo.
Estabelecendo a comparação entre os processos criativos subjacentes ao design de comunicação e às artes em âmbito geral, torna-se evidente que existe uma diferença substancial. No design de comunicação o foco está na resolução de problemas, recolha de feedback e satisfação de necessidades específicas de um público-alvo, enquanto que nas Artes o objectivo reside essencialmente na expressão pessoal e artística. Além disso, o design requer por vezes manutenção e iteração após o lançamento do projeto, com ajustes contínuos para garantir a eficácia e a relevância da solução apresentada. Esta é uma exigência que não se aplica da mesma forma a projetos artísticos, que tendem a ser mais subjetivos e autossuficientes em termos de expressão. Apesar das diferenças, considero a descrição do processo criativo dada pelo autor bastante apelativa, porque um designer gráfico também coloca uma parte de si no trabalho que faz, ele também infunde a sua personalidade nos seus projetos, tal como qualquer outra pessoa que crie algo, e daí a importância de conhecermos processos e operarmos segundo um mote que nos entusiasme, que nos traga algo de novo.
Para além de falar sobre as fases do seu processo criativo Rick Rubin revela a sua intenção de se afastar de métodos rígidos para, em contrapartida, incentivar o leitor a adotar métodos mais fluídos e holísticos, bem como a encarar a criatividade como um estilo de vida e não como uma estrutura inflexível a seguir no ato de criar algo. Na minha opinião, a verdadeira essência da sua mensagem reside no desenvolvimento de uma mentalidade que potencialize a criatividade em todas as esferas da vida, abordando conceitos como o “tuning in”, que nos convida a sintonizar a nossa atenção às diversas fontes de inspiração que o mundo nos oferece e a equilibrar os momentos de criação com os de pausa e introspecção.
Recensão de:
Beatriz Marçal
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24