Who can afford to be critical

Matos, Afonso

Who can afford to be critical

2021 Eindhoven
Set Margins

Quando se estuda num curso como design de comunicação numa instituição que nos guia para um pensamento conceptual e nos permite ser crítico, o design é redefinido como mais do que um serviço da indústria. Os designers são transformados em agentes de mudança social e política. Porém, à medida que os designers distanciam-se das instituições e aproximam-se da realidade do mundo do trabalho, uma lacuna abre-se e emergem questões como: de que forma são os seus projetos financiados? Quem pode dar-se ao luxo de manter este sonho de autonomia criativa e crítica após a graduação? Por onde circulam esses projetos? Quem pode interagir com eles? De que resulta esta interação?

O livro Who can afford to be critical de Afonso Matos surge destas questões e expõe mais outras. Em síntese, é analisado o porquê do Design Crítico ser exclusivo a uma minoria de designers que podem conduzir projetos críticos e independentes, quando isso não corresponde com a realidade da maioria dos profissionais que não possuem o poder de escolha para o fazer. Num segundo ponto, o alvo é o impacto dos discursos do design crítico no mundo real, exterior à profissão. Nas suas páginas o autor materializa partes da sua tese, que tem por base questões que expõem as problemáticas existentes no Design Crítico e é conduzido pela sua experiência (E de muitos colegas) na Design Academy Eindhoven que se categoriza como uma das instituições educacionais mais importantes do mundo na área de design, em conjunto com uma série de conversas/discussões com outros estudantes de design e textos de outros autores convidados, configurando-se numa coletânea de perspectivas, experiências e ideias diferentes. 

Organizado em 4 temas principais, num primeiro momento é-nos apresentado uma reflexão sobre a bolha criada pelas Escolas de Design (Crítico). Mais especificamente, escolas que se posicionam como acolhedoras da vanguarda e do novo com a promessa de uma prática autónoma e de auto-descoberta, quando ao mesmo tempo alienam-se das restrições materiais que distanciam os designers desta. Aspectos como exploração, classe, desemprego, preço de propinas significativamente alto, condições de trabalho injustas, vistos a expirar e todas as outras dimensões da precariedade são ignorados nos círculos de Design Crítico; e em vez disso, são colocadas em primeiro plano histórias de sucesso imbuídas com ideias enviesadas de sobrevivência. É necessário existir uma maior enfatização sobre as implicações e inequalidades do Design Crítico num mundo capitalista, em contrapeso à narrativa de uma carreira independente onde os designers “acreditam que têm o poder de fazer a diferença”. Ou como o autor metaforiza (e bem), as escolas de Design (Crítico) são como uma caixa de areia que não corresponde ao mundo afora.

“I tried to subvert capitalism with my design practice. Now I’m looking for a job” é o ponto de partida do segundo tema principal, o que eu considero adequado uma vez que este interpela o poder do design e da agência de designers. É questionado o que os designers podem fazer e que poder estes realmente possuem, o que nos leva à pergunta: Devíamos falar sobre poder, ou sobre agência? Numa sociedade capitalista neoliberal, a responsabilização individual por fenómenos referentes a sistemas e estruturas complexas torna-se regra, enquanto essas estruturas ocultam-se por não exercerem responsabilidade, extravasando-a para as nossas mãos. Quando discursos dessa linha, como “O poder do design” (que leva a uma responsabilidade individual), são reproduzidos no mundo do design, esta área não é reconhecida ou valorizada; em vez disso, produz-se arrogância e são estabelecidos padrões extremamente altos para tarefas que nos ocupam, em contraposição com os trabalhos diários que garantem a nossa subsistência. 

Em todo o caso é necessário existir uma distinção sobre o poder e a agência. A agência, segundo a sociologia, refere-se à capacidade de um determinado agente exercer a sua influência e fazer escolhas livres em relação a uma estrutura que o restringe. Essa definição ajuda-nos a compreender que os designers exercem o seu trabalho dentro de uma estrutura que os prende à diversas forças, portanto, a relação dos designers como indivíduos com essa estrutura. Logo, a discussão pertinente que o livro traz não é sobre o poder dos designers mas sobre a sua agência (que produz limitações e reduz o que os designers podem realmente fazer). Reconhecer a agência é importante mas que responsabilidade realmente têm os designers? Deve-se renunciar ao design como uma profissão pois esta é cúmplice do capitalismo? Que outros trabalhos sobram e não caem nas garras desse mesmo sistema? À medida que avançamos no livro, mais percepções desdobram-se e somos confrontados. 

O livro é maioritariamente formado por essas questões e reflexões que assombram muitos estudantes de Design Crítico, contém diversas nuances mas nenhuma resposta exata. É uma exposição das ansiedades do autor (que assume a sua posição de privilégio) que muitas vezes são negligenciadas dentro das nossas instituições. Aproveito para mencionar que o livro em si de certa forma configura-se como um paradigma e cai dentro dos cânones que estão a ser refletidos, é um livro escrito por designers e consumido por designers… Além disso, este ainda circula dentro de uma bolha, algo que o próprio autor reconhece.
A parte mais tangível ou física do livro, o volume impresso também é relevante: Afonso Matos compila e partilha de forma criativa e visual dentro deste objecto memes e referências diversas que tornam a leitura mais interessante. Cores chamativas, ruídos visuais, ilustrações, variações tipográficas são algumas das características presentes no objeto. No entanto, em alguns momentos a legibilidade é sacrificada pelo contraste entre as cores da mancha textual e o fundo, como por exemplo, no capítulo que tem a cor laranja fluorescente sob o fundo branco. Esta é aparentemente uma escolha consciente e crítica cuja intenção era de certa forma gozar com as tendências visuais que se encontram em vários trabalhos de Design Crítico-Gráfico.

Recensão de:
Carla Barreto

Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL

Disciplina: Estudos em Design, 2023-24

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