
Kat Holmes, experience designer norte-americana, foca-se na promoção da acessibilidade e no planeamento de sistemas e recursos de aprendizagem inclusivos e alcançáveis para todos. A sua carreira inclui os cargos de Diretora do departamento de Inclusividade na Microsoft e Diretora do ramo de Experiência de Utilizador na Google. Após um doutoramento em Design na OCAD University, Holmes destaca-se sobretudo através da escrita do livro Mismatch – How Inclusivity Shapes Design.
Esta obra serve não só como uma exposição ao tema de acessibilidade em serviços como também, de certa forma, de um guia para a prática de hábitos mais inclusivos no nosso quotidiano, através de uma exploração inovadora do mundo da intersecção entre o design e a inclusão. A autora assim mesmo definiu o objetivo da publicação, através de um “mergulho” no mundo da inclusão e na forma como esta potencializa o crescimento e inovação, nomeadamente no meio digital. Qualquer indivíduo consegue pegar nestas ideias e utilizá-las para melhorar o ambiente à sua volta. Até porque o sentimento de desagrado perante a sensação de distância e exclusão é algo praticamente comum a todo o ser humano. Desta forma, através de uma linguagem concisa, de exemplos pertinentes oriundos de diferentes contextos do nosso quotidiano e de auxílios visuais na forma de esquemas, Kat Holmes introduz-nos ao mundo difícil da batalha a favor da inclusividade.
O primeiro contacto que o leitor tem com o livro, através da capa, dá logo a entender a problemática explorada – através de uma representação gráfica de uma estratégia de inclusão de várias partes diferentes que geram um todo composto e equilibrado. Mergulhando dentro da publicação em si, deparamo-nos com duas secções: o índice e uma nota de abertura. Esta, redigida por John Maeda, vice-presidente do departamento de Design da Microsoft, introduz-nos brevemente à problemática da necessidade da existência de design inclusivo, bem como a notável diferença e estratégias que Kat Holmes adotou durante a sua estadia na Microsoft. Segundo Holmes, a utilização da nossa própria imagem como uma amostra que representa todo o ser humano origina a inevitabilidade da formação de exclusões num determinado contexto.
O conteúdo principal do livro divide-se em nove capítulos que exploram, através de exemplos oriundos das mais diversas áreas, a forma como muitas (pobres) decisões de design originam situações pouco agradáveis para certas minorias. Deste modo, o conteúdo abordado, apesar de explorado a partir de numerosas perspectivas, revela-se sempre claro e conciso, fazendo o leitor pensar que a inclusividade nunca deve ser tomada como garantida, independentemente da área focada. Holmes argumenta que qualquer incompatibilidade não só contribui para a marginalização das pessoas como também limita a sua plena participação em vários aspectos da vida. Assim, apela à necessidade de uma mudança de paradigma no pensamento de design.
Tal como um ciclo de vida, Kat Holmes começa o seu primeiro capítulo – “Welcome!” – a ilustrar que estes desajustes estão presentes desde a primeira infância: através de brinquedos difíceis de usar ou jogos que necessitam de muito esforço para serem usufruídos ao máximo. E é logo aqui, neste “início” da vida, que muitos elementos-base da nossa personalidade são definidos, através do processo inclusão-exclusão. Um indivíduo não aprecia determinado jogo ou objeto porque o corpo ou a mente reagem negativamente face às suas propriedades, provocando a reação “não é feito para nós”. Porém, o resultado deste “desgosto” origina a vontade de muitos se adaptarem a um certo produto (em vez de ser o contrário, o que seria o mais correto) de modo a não se sentirem excluídos na sua utilização. E é aqui que a área do design entra para nos ajudar. Pois o design pode ser tanto a causa do problema como a sua solução.
Um termo introduzido logo no segundo capítulo do livro e presente até à sua finalidade é o “ciclo de exclusão”, um conjunto de perguntas inter-relacionadas que definem a utilização de um determinado objeto ou serviço e que facilitam determinar o motivo de possíveis incompatibilidades com os seus utilizadores. Que produtos é que fazemos? Quem é que os faz? Como é que são feitos? Qual é a razão por detrás da sua produção? De que forma é que são usados? Qualquer uma destas perguntas pode servir como ponto de partida a favor de uma mudança de hábitos mais favorável para a comunidade no geral. De acordo com o ponto de vista de Holmes, é complicado um indivíduo ou uma empresa conseguirem proporcionar a máxima compatibilidade entre um objeto e o seu utilizador se não existir um bom fundamento sobre o seu propósito, o processo de criação e, finalmente, a sua finalidade.
Assim sendo, ao longo do livro a autora exemplifica estes mesmos “desencaixes” entre um indivíduo e um determinado serviço. No terceiro capítulo é abordado o contexto dos sensores de movimento incorporados nas casas de banho: muitas vezes defeituosos, estes falham em reconhecer um determinado gesto ou mesmo demonstram dificuldade em captar um determinado tom de pele. O quarto capítulo, por sua vez, introduz-nos a condição de jogadores com deficiência e critica a concepção da vasta maioria dos jogos de vídeo como serviços pouco acessíveis e que são desenhados para serem jogados de uma única forma: “a forma correta”. O quinto capítulo explora o mundo do planeamento urbano e questiona as escolhas utilizadas pelos designers, correlacionando-as com uma possível influência na forma como um indivíduo se movimenta. A temática do design dos interiores dos carros é abordada no sexto capítulo, relacionando o número elevado de acidentes de automóvel causados especificamente por mulheres com o interior da viatura pensada para acolher condutores do sexo masculino. O oitavo capítulo é inteiramente dedicado a breves histórias de pequenos equívocos, mas que todas juntas fazem o leitor pensar sobre o quão desequilibrado o nosso mundo se encontra. Com tantas incompatibilidades presentes no mundo que nos rodeia, Kat Holmes exorta desta forma os designers a ultrapassarem os estereótipos e assunções, reconhecendo as capacidades e necessidades únicas de cada indivíduo.
É também importante referir que Holmes defende a exclusão como algo por vezes benéfico, como uma oportunidade para remediar um erro e assim contribuir para a sociedade de uma forma significativa. Não tem de ser algo negativo, porém deve ser abordado como uma escolha intencional em vez de um dano acidental. Segundo a autora, o reconhecimento da exclusão sempre será a chave para qualquer avanço. Em suma, ao longo de Mismatch: How Inclusion Shapes Design, Holmes fornece ideias e boas estratégias para a integração de princípios de design inclusivo nas práticas mais comuns. A sua defesa da empatia, diversidade e inclusão desafia o status quo no pensamento do design, oferecendo um roteiro para um futuro mais equitativo e acessível. O livro serve assim de guia nomeadamente para designers e empresas interessados em criar produtos e ambientes acessíveis, acolhedores e funcionais para todos, através de uma análise cuidadosa do impacto social que certas decisões de design podem originar.
Recensão de:
David Peeters
Licenciatura em Design de Comunicação, FBAUL
Disciplina: Estudos em Design, 2023-24